✓Capítulo 90 — Máscara Rachada (Parte 1)
“Ninguém se apresenta com o nome que mais dói.” — (Anotação de R.)
Ficamos alguns segundos nos encarando, a xícara de café entre nós como se fosse fronteira.
Ele tinha acabado de dizer que talvez eu não aguentasse saber quem ele era nessa história.
O problema é que o meu corpo parecia já saber. O tremor leve na mão dele. O jeito de segurar a xícara. O cheiro de jasmim fantasma.
Chega.
— Vamos começar pelo princípio — murmurei, percebendo que minha voz carregava um frio que eu não havia planejado. Uma pausa breve, quase um desafio silencioso. — Quero o nome completo. Sem disfarces. Sem fragmentos.
Ele apoiou devagar a xícara no pires. Não desviou o olhar.
— Renata…
— Nome. — cortei. — Agora.
Silêncio. Não o silêncio confortável, mas aquele que parece se estender como um fio tenso prestes a arrebentar. Ele inspirou profundamente, o peito se erguendo num compasso lento.
— Meu nome… não é Alexandre — murmurou, a voz carregando algo entre culpa e resignação.
O espaço ao redor da mesa pareceu encolher, o ar denso, quase palpável, pressionando contra a pele.
— E qual é, então? — perguntei, mesmo com a estranha certeza de que a resposta viria como um golpe.
Ele não desviou. Seus olhos se cravaram nos meus, firmes, mas havia um tremor sutil ali, como se estivesse se agarrando à coragem com as unhas.
— Meu nome é Guilherme Santoro. As palavras não apenas ecoaram — elas atravessaram meu peito como uma rajada súbita que invade pela fresta de uma janela esquecida aberta em plena tempestade.
Gui-lher-me. Sant-o-ro. Cada sílaba parecia carregar um peso antigo, como se fosse feita de pedra molhada.
Era o mesmo nome que Marta deixara escapar na penumbra da capela, o mesmo que reinava no topo do dossiê das investigações, o mesmo que eu rabiscara nas minhas anotações, cercado por um ponto de interrogação que mais parecia um grito silencioso.
E, ainda assim, havia algo mais — um eco abafado, vindo de um lugar onde a memória se mistura com o medo. Eu já o tinha visto antes, no limiar de meus pesadelos, nas sessões de hipnose. Não. Não era esse rosto de Guilherme.
Meu corpo foi mais rápido que minha mente: o estômago se contraiu, as mãos gelaram, e o mundo ao redor se dissolveu num zumbido distante, como se o trânsito, as vozes e o ar tivessem sido engolidos por um vazio súbito.
— Repete — pedi, sem perceber que estava pedindo.
— Guilherme. Santoro. — Ele obedeceu, firme.
Flashes cintilaram na periferia da memória: uma sala branca demais, uma mão segurando a minha sobre um papel, uma voz dizendo “é só formalidade”. Um salão elegante, taças, música baixa, um homem encostado na parede com a mão tremendo.
O mesmo tremor que eu estava vendo agora, treze anos depois, na mesa de um café qualquer.
— Você… — a frase travou na garganta por um segundo — …você é o homem que estava na sala da assinatura.
Não soou como pergunta. Mesmo assim ele respondeu:
— Sou.
Poderia ter negado. Poderia ter dito que não lembrava. Mas não fez.
O ódio veio rápido, quente.
— Então vamos alinhar — falei, me inclinando um pouco pra frente.
— Você é o homem que segurou minha mão quando eu estava dopada, guiou a caneta sobre um contrato que me vendia como barriga de aluguel, viu o exame invasivo acontecer sem consentimento… e ficou em pé olhando. Certo?
Ele sustentou.
— Sim.
Não tentou reformular. Não fez rodeio.
— E também sou o homem que, depois, tentou te tirar de lá — acrescentou, baixo. — Tarde demais, do jeito errado, mas tentou.
Eu ri. Frio.
— Que conveniente essa autoimagem equilibrada: algo entre algoz arrependido e salvador torto.
Ele apertou os dedos ao redor do pires, como se se segurasse ali.
— Não estou aqui para me absolver, Renata. Nem para pedir perdão. — Fez uma pausa curta. — Estou aqui porque chegou num ponto em que esconder quem eu sou está atrapalhando mais do que protegendo.
— Protegendo quem? — cortei. — Você? Eu? A Aurélia?

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