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A Pele Que o CEO Não Esqueceu romance Capítulo 81

“Ela ensaiou o papel de vítima com perfeição. Mas não sabia que o público havia mudado.” — Reflexão de ‘’Theo disfarçado

...

A mesa estava arrumada com um cuidado quase exagerado — tudo parecia saído de um cenário de novela. Os lustres jogavam uma luz dourada que dançava sobre os pratos de porcelana, deixando o ambiente bonito, mas com um clima estranho no ar.

Victoria, sentada com o look impecável de sempre, aparentava calma. Mas os olhos entregavam: por dentro, ela estava longe de tranquila.

Enzo, firme na cabeceira, tinha o mesmo ar de quem sempre toma as grandes decisões, como se tudo girasse em torno dele. Lorenzo estava à sua direita, quieto, mas com aquele olhar esperto, típico de quem está prestando atenção em tudo.

Dante, com sua forma sempre discreta, se acomodou bem de frente para o avô, como quem quer analisar cada gesto, cada respiro, tentando entender o que ninguém diz em voz alta.

Quando os pratos chegaram, o clima pesou. Ninguém precisou falar nada — dava pra sentir que havia muita coisa sendo engolida junto com a comida.

Foi aí que Victoria, com a segurança de quem sabe jogar esse tipo de jogo, fez sua jogada.

Sua mão deslizou pelo braço de Enzo com uma delicadeza que parecia inofensiva — mas não era. Havia estratégia naquele toque, memória e poder. Ele não recuou, mas também não reagiu.

― Querido… falei com meus médicos hoje ― disse ela, num tom baixo, quase íntimo, mas com uma firmeza subjacente que atravessava as palavras como um fio oculto. ― Eles acham que essa nova cirurgia pode, enfim, me devolver os movimentos.

Enzo ergueu os olhos, devagar. O rosto não revelava surpresa nem alívio — apenas o silêncio calculado de quem digere mais do que escuta.

― Nova cirurgia? ― repetiu, como se precisasse de tempo para absorver — ou desmontar — aquela frase. Sua voz era neutra, mas levemente embargada por uma incredulidade bem disfarçada.

Fez uma pausa, depois pegou os talheres. Um gesto automático. Preciso. Quase teatral em seu esforço por normalidade.

― Achei que já tivessem tentado de tudo… ― disse, com a frieza polida de quem prefere se apoiar na lógica para não ser sugado pelas entrelinhas.

― Não foi isso que disseram os médicos da última vez que estivemos em Boston?

Ela sorriu com a mesma boca que já dissera meias-verdades com convicção absoluta.

Dante, que até então observava em silêncio, inclinou-se levemente para frente, os olhos brilhando com uma curiosidade que parecia tanto genuína quanto estratégica. Sua voz, quando veio, era calma, quase despretensiosa, mas havia um fio de análise cortante em cada palavra.

— É curioso… — disse num tom que parecia mais pensar alto do que acusar, como quem contempla algo que não faz sentido à primeira vista. — Se existe mesmo essa chance, por que só agora? Depois de tanto tempo, com sequelas tão antigas... Qual é, de fato, a probabilidade de sucesso?

As palavras pairaram no ar como uma névoa pesada. O silêncio que se seguiu não era vazio — era carregado de tudo aquilo que ainda não havia sido dito.

Cada olhar era uma pergunta disfarçada. Cada respiração, uma espera contida.

Lorenzo inclinou a cabeça, o sorriso discreto brincando nos cantos da boca. A tensão no ambiente não o incomodava — pelo contrário, parecia lhe dar prazer.

— Boa pergunta, Theo — respondeu, com a voz cortante como lâmina embebida em gelo.

Seu olhar então se fixou em Victoria. Firme. Frio. Desconfiado.

— Por que só agora essa cirurgia apareceu? A última tentativa foi há mais de dez anos, não foi?

— Vocês passaram quase nove meses no exterior, testando tratamentos, fazendo promessas… e nada funcionou. Mas agora, de repente, surge uma solução milagrosa?

O ceticismo nas palavras de Lorenzo não era apenas técnico — era pessoal. Ele cavava as entrelinhas com precisão cirúrgica, tentando descobrir não apenas o que Victoria dizia… mas o que ela escondia.

E naquele instante, o ar na sala já não era só tenso. Era cortante.

Victoria sentiu o golpe. Seu desconforto era nítido, mas ela se recusava a recuar. Endireitou os ombros, puxou o ar com a calma estudada de quem atravessa uma tempestade de cabeça erguida, e forçou um sorriso que não alcançou os olhos.

— Bem... sim — começou, a voz macia, mas ancorada em uma firmeza treinada. — Há dez anos, tentei algumas vezes. Mas, naquela época, os procedimentos eram muito limitados. Agora, com as novas técnicas, as chances são bem melhores.

Ela se manteve serena, como se cada sílaba exigisse controle. Mas o olhar... o olhar denunciava mais do que ela gostaria: uma mistura tensa de vulnerabilidade e determinação.

Dante cruzou os braços devagar, com um gesto que oscilava entre desdém e falsa inocência cuidadosamente calibrada.

— Dez anos atrás... — repetiu, como se contasse os anos nos dedos da memória.

— Mas o acidente... não foi há treze? — Sua voz tinha um sabor de provocação — suave, quase agradável — como quem lança uma dúvida e observa a rachadura se formar.

— Não teria sido mais lógico tentar naquela época? A primeira tentativa só aconteceu três anos depois. E agora, mais de uma década depois, surge essa segunda chance?

Havia um peso nas perguntas. Não era só sobre datas. Era sobre intenções. E, ali, as entrelinhas eram mais importantes do que qualquer resposta.

Victoria congelou.

Por um breve instante, o mundo pareceu parar com ela. Apenas um piscar rápido de olhos traiu a onda de emoções que ameaçava transbordar, antes que ela recuperasse a compostura com a precisão de quem já vestiu máscaras muitas vezes.

Enzo, por outro lado, não conseguiu esconder a inquietação. Seus olhos buscaram os dela, mas não encontraram respostas, apenas um silêncio que parecia pesar mais do que qualquer palavra. A suspeita já se desenhava em seu rosto, como uma sombra que não podia ser ignorada.

Lorenzo soltou uma risada baixa, quase imperceptível, enquanto levava a taça de vinho aos lábios. Havia algo de curioso, quase cínico, em seu tom:

― Três anos, sem nenhuma tentativa. Dez anos em silêncio, e agora, de repente, essa urgência? E, claro, precisa de Enzo ao seu lado. Por quê? Sua família, que sempre esteve tão presente, não pode acompanhá-la?

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