“Lembrar não desfaz. Às vezes só reabre.” — Dra. Iasmim
[...]
Depois de algum tempo, não sei se minutos ou horas, vesti o vestido de volta. Arrumei o cabelo no pequeno espelho da parede.
Desci para o banheiro do primeiro andar. Lavei o rosto com água fria até a pele arder.
Olhei para meu reflexo.
Sorri.
Não sorriso feliz. Não sorriso de vitória heroica. Sorriso de ironia nova e silenciosa.
[...]
Voltei ao salão. Estavam todos lá ainda. Menos Guilherme.
Aurélia, do lado oposto, me mirou com aquele olhar de contabilista — medindo, pesando, calculando lucros e perdas.
Eu devolvi o olhar de quem sabe somar sem mostrar o cálculo na lousa.
Ela não sabia ainda.
Mas o contrato já estava morto.
E eu, pela primeira vez em anos, estava viva de um jeito que ninguém podia mais comprar.
[...]
Abri os olhos na sala branca da Dra. Iasmim. As lágrimas desciam silenciosas pelo meu rosto. Não de tristeza. Não de vergonha. Eram de alívio.
— Está concluído. — Minha voz soou dura, mas firme. — Agora compreendo com clareza de que maneira se deu a ruptura do contrato.
A dra. Iasmin pausou o gravador digital com delicadeza.
— Então você lembrou-se de como se salvou. — comentou, sem julgamento, sem pena.
Assenti.
Porque era verdade brutal e inegável.
Não foi heroísmo romântico. Não foi ato de coragem cinematográfica.
Foi estratégia de sobrevivência executada com precisão cirúrgica.
Eu demoli meu próprio valor de mercado. Sabotei minha própria venda. Transformei meu corpo em arma contra quem queria transformá-lo em mercadoria. Mas não estou preparada para saber o que veio depois disso.
A sala da Dra. Iasmim cheirava a álcool suave e alguma coisa floral que eu ainda não tinha conseguido decifrar. Me sentei cruzando as pernas. Minhas mãos estavam suando frio.
— Você parece mais velha agora que voltou — ela comentou. Só constatação clínica.
— Eu estou mais velha — respondi, tentando usar o humor como escudo. — Uns onze, doze anos e algumas horas.
Ela sorriu de lado, pegou o tablet e depois o largou de novo. Não anotou nada. Isso sempre me deixava num misto de alívio e irritação. Como se as coisas ficassem mais reais quando escritas.
— Vamos agendar a próxima sessão? — perguntou.
Eu respirei fundo. Não era pergunta aberta. Não mais.
— Preciso interromper as sessões por um período — declarei.
Ela inclinou levemente a cabeça, como quem avalia silenciosamente a decisão que acabei de tomar.
— Fim… da hipnose?
— Fim de entrar lá dentro — corrigi, apontando para a própria testa. — Por enquanto, chega. Não quero mais entrar lá dentro.
Silenciamos por um tempo.
— Tudo bem — ela disse, e a parte racional em mim quase se ofendeu com a rapidez. — Você tem que estar totalmente entregue, disposta a continuar para a hipnose ter efeito.
— Só assim? — soltei, mais ríspida do que pretendia.
— Você queria que eu brigasse com você? — os olhos dela estavam atentos. — Que dissesse “não pode parar agora, estamos perto”, como terapeuta de filme?
Suspirei.
— Talvez eu quisesse alguém dizendo o que fazer. Só pra ter quem culpar depois.
O sorriso dela era técnico, quase automático. Não carregava escárnio — apenas a naturalidade de quem já mapeou esse território emocional com dezenas de pacientes antes.
— Renata… — encurtou a distância entre nós. — O que você está sentindo agora não é mistério. Tá misturando exaustão com medo. Exaustão de remexer em coisa demais, medo do que ainda pode aparecer.
Eu não respondi. Ela continuou:
— A questão não é se você “deve” continuar ou não. A questão é: você entende o custo de cada escolha?

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