“A escolha não some porque você tomou uma decisão hoje.” — Dra. Iasmim
De volta ao apartamento, ele parecia maior do que realmente era, como se os cômodos tivessem se expandido enquanto eu estava fora. Ou talvez fosse eu quem tinha encolhido — diminuta pelo peso de tudo que carregava. Tirei os sapatos na porta, a chave caiu pesada na bancada, e a bolsa desabou na cadeira como se fosse uma coisa sem vida.
Mal coloquei os pés no sofá e o celular já começou a vibrar. Olhei a tela: era uma mensagem do grupo de segurança. Joana queria saber se eu estava bem. Com dedos mais rápidos que o próprio ritmo do meu coração, escrevi:
“Interrompi a hipnose. Vamos focar nas evidências, não na minha cabeça.”
Fiquei um tempo olhando aquelas palavras antes de apertar o botão de enviar.
Joana foi quem leu primeiro. Em menos de trinta segundos, ela respondeu:
“Recebido. Tô com você em qualquer uma das frentes. Sem pressão, tá?”
Três segundos depois, veio outra mensagem, separada:
“Se o peso for demais, me chama. A gente segura junto.”
Um aperto quente tomou meu peito. Eu não queria precisar de ninguém. Mas a verdade era que eu precisava.
Rafael respondeu com aquele jeito profissional de sempre:
“Entendido. Nosso foco é em documentos, registros e cruzamento de dados. Se tiver qualquer outra mudança, me avisa. E lembre-se: você não está sozinha nessa linha.”
A frase ficou ecoando na minha cabeça: “Você não está sozinha nessa linha.”
Li duas vezes. A palavra “linha” pareceu estranha, como se não encaixasse bem — podia ser “linha de investigação”, “linha do tempo” ou até “linha de corte”.
Deixei o celular na mesa e fui até o quarto. No criado-mudo, o caderno me esperava aberto na última página, com uma caneta cravada como se fosse uma espada. Sem pensar muito, peguei a caneta. Olhei para a folha cheia de rabiscos: horários, sonhos, flashes de memória e palavras soltas.
“03:07” repetido várias vezes, como um refrão doentio que não sai da cabeça.
Sentei na cama. A caneta ficou encaixada entre meus dedos como se fosse algo familiar, quase um vício. Lembrei da voz da Dra. Iasmim dizendo: “Se virar obsessão, você fecha o caderno.”
Fechei os olhos. Por alguns segundos, o impulso quase ganhou. Quase escrevi: "Hoje decidi parar. Hoje..."
Não escrevi.

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