"Há espelhos que não refletem o rosto, mas a ruína silenciosa de quem sempre fingiu ser inteira. E, no fundo da imagem perfeita, mora a sombra de tudo o que está prestes a desmoronar." — Do diário de D.
...
O silêncio no quarto de Victoria era pesado, como uma névoa densa que se espalhava pelos cantos, dificultando a respiração. As paredes, que um dia a acolheram com familiaridade, agora pareciam conspirar contra ela, fechando-se lentamente, como se fossem cúmplices de um segredo que ela se recusava a enfrentar.
Ela sentia que estava perdendo o controle, e essa sensação era tão inevitável quanto assustadora.
Sentada na frente da penteadeira, o espelho refletia uma imagem perfeita: pele lisa e bem cuidada, uma maquiagem delicada que realçava sua beleza e cabelos arrumados com precisão quase cirúrgica.
Era uma perfeição que parecia inabalável, como a de uma boneca de porcelana. Mas Victoria sabia. Ela tinha consciência de que, por trás daquela fachada cuidadosamente montada, as rachaduras estavam lá. Pequenas, quase invisíveis, mas crescendo devagar, ameaçando romper a superfície.
Ela se inclinou um pouco mais para frente, os olhos fixos em seu próprio reflexo, como se buscasse algo além da imagem que via. Mas o que encontrou foi um abismo de emoções conflitantes: repulsa, desespero, uma dor que ela não sabia nomear.
E então, como um sussurro que ecoava na sua cabeça, a verdade que ela tinha medo de enfrentar se fez ouvir de forma cruel e inescapável:
― “você está sendo substituída.”
A voz na sua mente já não era mais um sussurro suave; virou um grito abafado, insistente, repetindo aquilo que ela se recusava a aceitar.
O olhar de Enzo durante o jantar ficou gravado na sua memória como uma ferida aberta. Não era só frio, era como um abismo — distante, vazio, como se ela tivesse se tornado algo menor que uma sombra, uma lembrança incômoda que ele carregava por hábito, não por vontade.
Uma obrigação que o tempo tinha desgastado até o limite.
E agora havia outra. Uma mulher. E era essa tal de Dayse Lancaster. O nome soava como um trovão na cabeça dela, mesmo que ela mal soubesse quem fosse.
Dizem que ela é a CEO da Lancaster Holdings. Jovem, inteligente, com um futuro promissor. Era o que todo mundo comentava. Mas o que mais a atormentava era a frequência com que esse nome aparecia — parcerias, reuniões, almoços...
E agora... noites. Noites que não eram mais dela, mas de Dayse. Ela nem sabia ao certo quantas noites eles tiveram, mas foi informada sobre o encontro dos dois.
Ela não precisava de explicações — o vazio no olhar de Enzo bastava. O silêncio dele gritava mais alto do que qualquer palavra, e cada fragmento da verdade que ela conhecia era como uma lâmina atravessando devagar.
Victoria havia descoberto tudo: o bar, o beijo, cada detalhe que minava sua paz. Havia alguém infiltrado na empresa, uma sombra vigilante que lhe entregava, com precisão cirúrgica, o roteiro completo dos passos de Enzo. Nada escapava: encontros, horários, até os gestos mais discretos.
Ela fechou os olhos, o maxilar travado, tentando conter a fúria que crescia, silenciosa, dentro do peito.
Desde o acidente, o que havia entre eles deixou de ser amor físico para se transformar em lealdade — e isso, de alguma forma, bastava. Enzo não se envolvia com ninguém. Quando saía era apenas para aliviar a tensão sexual e raramente repetia encontros. Era sempre discreto, impessoal. E ela aceitava, não por conformismo, mas porque sabia que sua própria condição não permitia intimidade.
Não era ciúme o que a consumia agora.
Aquilo ia muito além de uma simples traição. Para Victoria, era uma confirmação mais dolorosa: Enzo estava pronto para seguir em frente — e ela não fazia parte desse novo caminho.
Ele nunca foi de se expor. Nunca dividiu uma bebida com outra mulher em público, nunca desviou o olhar, nunca se abriu para outro vínculo. Ele se fechou para o mundo — até agora.
A única vez em que Enzo demonstrou intenção de se envolver com alguém foi anos atrás — e foi ela quem agiu nos bastidores para neutralizar discretamente a mãe de Theo, por quem ele parecia claramente inclinado. Cortou as asas antes que ele pudesse voar para longe. E funcionou.
Mas agora... era diferente. Essa mulher não era uma distração, nem um erro momentâneo. Era algo mais profundo. E Victoria sentia isso. Sentia que não havia nada que pudesse fazer de imediato para estancar isso, nem um plano que pudesse impedir o que estava surgindo.
Ela sentia o sangue ferver, como se cada batida do coração ecoasse a fúria que não cabia mais dentro dela.
Depois de tudo que fez... depois de cada passo calculado, de cada sacrifício velado, de cada batalha vencida para garantir o sobrenome Bellucci, o prestígio, a posição. Ela foi estratégica, foi leal quando ninguém mais foi, sustentou aparências, encobriu feridas. Tudo para manter Enzo — e o que vinha com ele — ao lado dela.
E agora, ele simplesmente escapava.

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