“Meus filhos já não são apenas meninos. São centelhas do que fomos e do que nunca pudemos ser. Tenho medo de perdê-los para os jogos que eu mesma iniciei.” ― Diário de D.
Dante, Gael e Noah chegaram à imponente mansão Bellucci com a elegância de quem já fez isso mais vezes do que gostaria de admitir — e com a discrição de um gato que derruba um vaso e finge que nada aconteceu. A tarde estava tão silenciosa que parecia estar tirando um cochilo, mas, ainda assim, conspirava com o trio, que carregava uma tensão tão densa que dava para cortar com uma faca...
Theo já estava na sala secreta, o bunker particular que ele mantinha longe dos olhos curiosos da madrasta e dos empregados, que provavelmente achavam que ele passava o tempo lá jogando paciência.
Assim que os três entraram, Theo se levantou, os olhos afiados como lâminas, analisaram cada detalhe — os passos hesitantes, os olhares engenhosos, os gestos contidos, a tensão que parecia pulsar entre eles como um fio prestes a se romper.
Algo estava errado, e ele sabia que a resposta não seria simples.
— O que foi? O que aconteceu? — perguntou, a voz firme, mas agora carregada de alerta. O olhar dizia mais do que a pergunta:
― A mamãe está bem? Aconteceu alguma coisa com ela?
Era mais do que curiosidade — era o instinto de proteção dos quatro despertando ao mesmo tempo.
Gael não conseguiu se conter. Deu um passo à frente, a urgência estampada no rosto.
— Nossa mãe chegou tarde ontem... e não estava sozinha — disse, olhando diretamente para Theo, como quem espera que ele entenda o que está em jogo.
Theo estreitou os olhos, atento.
— O que está querendo dizer com isso? — perguntou, a voz mais baixa, mas carregada de tensão.
Dante se aproximou, mais contido, mas igualmente alerta.
— Então... nosso pai. Ele... a levou pra casa. Eles se beijaram. E... ela parecia abalada — disse com cuidado, como quem revela algo que pode mudar tudo.
O silêncio que se seguiu foi denso.
Theo fixou o olhar no vazio, absorvendo as palavras. Então, com a voz mais firme:
— Então está acontecendo... mas não é hora de agir ainda.
“Estou sendo vista demais. Pelos olhos de um homem que conheço e por outros três que ainda tento compreender. Preciso lembrar que olhar não é o mesmo que enxergar. E ser tocada não é o mesmo que ser compreendida.” ― Diário de D.
Por trás de cada palavra, não havia apenas desconfiança ou surpresa — havia preocupação genuína com a mãe. Com o que ela poderia estar revivendo. Com o que isso significava para ela — e para todos eles.
Havia algo mais profundo por trás daquela conversa quase estratégica — um cuidado palpável que os quatro filhos expressavam com gestos e silêncios.
Quando trocaram olhares e assentiram juntos, não era apenas concordância. Era o reflexo de uma preocupação partilhada, um instinto coletivo de proteger aquilo que mais importava: sua mãe.
Theo assumiu a liderança com a calma de quem entende o peso das decisões.
— Por enquanto, apenas vamos observar — disse, sem pressa — precisamos entender o que cada um sente, quais são as intenções reais... e, principalmente, o que causou a separação deles.
O silêncio que se seguiu estava carregado — não de dúvidas, mas de emoção reprimida. Cada um parecia absorver o papel que teria que desempenhar a partir dali.
Noah foi o primeiro a verbalizar o que os outros já pensavam:
— Cada um de nós deve assumir a responsabilidade por um deles.
A frase não era sobre vigilância. Era sobre cuidado.
— Eu fico com a mamãe — disse com firmeza, mas os olhos denunciavam a inquietação.
— Eu fico com o papai! — anunciou Gael, com entusiasmo infantil, tentando ajudar do jeito que sabia.
Noah sorriu, breve e afetuoso, mas logo retornou à gravidade do momento.
Theo completou:
— Isso não vai funcionar assim. Quem estiver na mansão acompanha o papai. E os três que estiverem com a mamãe... cuidam dela — e dele, se ele aparecer por lá.
A divisão parecia estratégica, mas por baixo dela havia algo mais íntimo: o desejo de impedir que a mãe se machucasse novamente.
Dante, que até então permanecia em silêncio, arqueou uma sobrancelha, sua expressão uma mistura de curiosidade e desafio.
— E eu? Qual será o meu papel além de vigiar o papai, já que esta semana sou eu que vou ficar por aqui? — indagou, sua voz carregada de uma ironia sutil, mas também de uma inquietação que ele não conseguia esconder completamente.
Theo fechou os olhos por um instante, buscando coragem no silêncio antes de falar. Sua voz saiu firme, mas carregada de uma gravidade que não podia ser ignorada.

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