Amélia engoliu em seco, sentindo o estômago revirar.
— Quem é essa? — perguntou, sem conseguir esconder o desconforto, olhando rápido ao redor do interior da casa, que parecia escuro demais mesmo com a lua lá fora. — O que é esse lugar?
A velha inclinou a cabeça, como se estivesse analisando um animal recém-chegado ao abate.
— Educação primeiro, menina — murmurou. — Ou vai descobrir que a floresta não costuma perdoar gente mal-criada.
Sandra entrou primeiro, como se a casa pertencesse a ela, e Amélia foi atrás, sentindo a porta se fechar sozinha às costas com um rangido sufocante. O interior era maior do que parecia por fora, cheio de prateleiras com frascos escuros, ervas penduradas no teto, símbolos entalhados na madeira e uma mesa velha no centro com objetos espalhados: pedras, fios, ossinhos, velas derretidas, e um punhado de búzios que brilhavam sob a pouca luz como olhos brancos.
— Quem é você? — Amélia insistiu, a voz falhando no fim, porque só de olhar para aquela mulher dava vontade de recuar.
A velha sorriu de novo, devagar, e dessa vez o sorriso parecia saber demais. Tinha dentes amarelados, mas nenhum apodrecido.
— Saturn — respondeu. — A melhor bruxa destas terras.
Sandra soltou um riso curto, debochado, e caminhou até a mesa como se tivesse pressa de pular a parte teatral.
— A melhor e a única — corrigiu Sandra, a voz seca, impaciente.
Saturn virou lentamente o rosto para Sandra, e o ar pareceu ficar mais frio.
— A única? — repetiu, com um brilho estranho no olhar. — Não exatamente.
Amélia franziu o cenho, confusa, e até Sandra, que parecia sempre tão dona da situação, ficou um segundo parada, como se aquela resposta tivesse arranhado alguma coisa por dentro. O silêncio que veio depois foi desconfortável, porque Saturn não explicou, apenas ficou olhando, como se esperasse que as duas descobrissem sozinhas o tamanho do buraco em que tinham acabado de se enfiar.
— Não foi pra conversar sobre enigmas que eu vim — Sandra quebrou o clima, endireitando os ombros, recuperando a firmeza. — Preciso de algo, preciso enganar instintos.
Saturn caminhou até a mesa, arrastando uma cadeira com um som alto demais, e sentou com calma, como se tempo fosse uma coisa que só os outros precisassem respeitar. Os dedos velhos tocaram os búzios, mexendo neles com um cuidado quase carinhoso, e Amélia percebeu que não era carinho de verdade, era posse. Como se cada objeto ali obedecesse.
— Instintos de quem? — Saturn perguntou, sem levantar os olhos.
Sandra cruzou os braços, sem paciência para rodeios.
— Dois lobos apaixonados — respondeu, e a palavra “apaixonados” veio carregada de desprezo. — Dois alfas, eles estão… fora de si por causa da irmã gêmea dela. Preciso que essa humana troque de lugar com a irmã para eu conseguir dar um fim aquela maldita antes que ela tire o que me pertence.
Saturn ergueu os olhos devagar e encarou Sandra com um interesse mais vivo do que antes, como se finalmente tivesse ouvido algo digno do seu tempo.
— Isso é complicado — murmurou a bruxa. — Enganar o olfato de um lobo já é difícil. Enganar o olfato de dois alfas… e ainda por cima ligados por um vinculo… isso não é coisa de amadora.
Sandra inclinou o corpo para frente, os olhos brilhando levemente em amarelo enquanto deixava claro que estava disposta a pagar qualquer preço..
— Eu pago — disse, direta. — O que você quiser. Eu pago.
Saturn ficou um instante em silêncio, como se estivesse saboreando a oferta, como se dinheiro fosse apenas uma das moedas possíveis. O olhar então deslizou para Amélia com lentidão, avaliando cada detalhe do rosto, cada semelhança, cada diferença, como quem compara uma cópia com o original. Amélia sentiu um arrepio subir pelo pescoço, a vontade de se cobrir, de se esconder, mas não havia para onde correr.
— Você paga? — Saturn perguntou, a voz quase divertida. — E com o que pretende pagar, loba? Não sei se você tem algo que me interesse.
Sandra não respondeu, apenas manteve o olhar firme, um desafio silencioso.
Saturn sorriu, e então apontou para Amélia com um dedo magro.
— O pagamento está aqui.
Amélia sentiu o coração despencar.
— O quê? — perguntou, dando um passo para trás. — Eu? Eu não tenho dinheiro, eu nem… eu nem sei o que está acontecendo direito!
Saturn inclinou a cabeça.
— Não preciso do seu dinheiro, menina — respondeu. — Preciso do seu sangue.

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