No hospital da alcateia, o cheiro de sangue ainda impregnava tudo, mas algo novo se misturava ao ar, um calor estranho, como se o ambiente tivesse sido tomado por uma febre invisível. Liana estava na cama, e por alguns segundos o corpo pareceu quieto, assustadoramente quieto, como se tivesse morrido. As enfermeiras prenderam a respiração, Anton ficou imóvel, Dante ficou rígido, e naquele instante ninguém ousou dizer em voz alta o que todos suspeitavam, que a mulher na maca havia morrido.
Então Liana gritou.
O grito veio de dentro, rasgando a garganta com uma dor que não precisava de consciência para existir. O corpo arqueou com violência, como se alguma coisa tentasse sair por dentro da pele, e as mãos antes frouxas se fecharam em punhos tão fortes que as unhas quase perfuraram a própria palma. A ferida do braço, que antes vertia sangue sem parar, começou a se fechar diante dos olhos de todos, a carne se unindo num ritmo antinatural, como se o corpo tivesse decidido lutar de última hora.
A cor voltou ao rosto rápida demais. O pálido deu lugar a um rubor febril, os lábios ganharam tom novamente, mas algo não parecia certo. Era como se duas naturezas estivessem brigando pela mesma carne.
— Está doendo… — Liana choramingou, a voz quebrada, e o choro veio misturado ao grito, desesperado. — Faz parar… por favor…
Anton segurou a mão dela de imediato, como se aquele toque pudesse ancorar a alma, como se a presença pudesse impedir que ela se partisse em duas. Dante, tomado por ciúme e medo, fez o mesmo do outro lado, agarrando a outra mão com força, incapaz de ficar parado, incapaz de assistir sem tocá-la.
Ambos podiam sentir a dor dela, a febre da transformação que queimava por dentro os dois alfas já que agora, de alguma forma, o vínculo dos dois estava completo.
— Vai ficar tudo bem — Anton disse, firme, mas havia tensão demais por trás da frase. — Vai passar, eu prometo. Só… respira.
Liana abriu os olhos com dificuldade.
E então o quarto inteiro gelou.
Porque os olhos estavam sangrando.
Lágrimas vermelhas escorriam pelos cantos, manchando as bochechas, e a íris não conseguia se decidir: por um segundo era amarela, no tom selvagem dos lobos… no outro era lilás, brilhando de um jeito estranho, antigo, como magia. A mudança acontecia rápido demais, como um piscar de olhos, e o corpo tremia com espasmos curtos, como se ps nervos estivessem queimando.
— Meu Deus… — uma enfermeira sussurrou, recuando instintivamente.
— Isso não é normal — outra murmurou, os dedos tremendo sobre os instrumentos.
Dante apertou a mão de Liana com força, o peito subindo e descendo como se fosse ele quem estivesse em transformação. O lobo dentro dele rugia, mas não de raiva, de culpa. Se sentia culpado por ter feito aquilo, agiu por impulso e por ciúme, agora ela estava em risco, um risco que ninguém sabia calcular ou entender.
— Liana… olha pra mim — Dante tentou, a voz rouca. — Aguenta, aguenta um pouco mais.
Liana soluçou, o rosto contorcido de dor, e balançou a cabeça freneticamente.
— Não aguento! — chorou, tentando puxar as mãos, mas os dedos estavam presos aos deles. — Para, eu não quero… eu não quero isso… tá queimando… tá queimando por dentro…
Anton olhou para as enfermeiras, o olhar vermelho, duro, avaliando rápido o que todos estavam vendo e entendendo o que ninguém queria admitir: aquilo estava acontecendo rápido demais, tudo de uma vez, e o corpo dela não tinha estrutura para aguentar.

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