Havia algo pesado no ar, como se a floresta soubesse que estava prestes a testemunhar mais um erro humano sendo selado. Entre raízes grossas que rasgavam o chão e pedras cobertas de musgo úmido, Sandra avançava com passos firmes, seguros demais para alguém que caminhava no escuro. O corpo ainda estava humano, mas havia algo predatório na maneira como os ombros se moviam, como se a loba estivesse logo abaixo da pele, impaciente.
Amélia vinha logo atrás, tropeçando mais de uma vez, os joelhos ralados, a respiração curta demais. Medo e excitação se misturavam em proporções perigosas, fazendo o coração bater forte enquanto a mente tentava acompanhar tudo o que estava acontecendo rápido demais. Quando largou Justin no hotel mais cedo, jamais imaginou que iria descobrir um mundo de lobos e, principalmente, jamais imaginou que sua irmãzinha estava enfiada nele até o pescoço.
A floresta parecia fechar-se ao redor, as árvores altas formando sombras tortas que pareciam se mover quando ela piscava.
— Você tem certeza disso? — perguntou, quebrando o silêncio de repente, a voz carregada de desconfiança e uma nota quase infantil de pânico. — Se o que você disse for verdade… Essa coisa toda de lobos e instintos apurados, eles vão perceber na hora que não somos a mesma pessoa.
Sandra não diminuiu o passo.
O sorriso surgiu lento no canto da boca, frio, confiante demais para alguém que estivesse improvisando.
— Não vão — respondeu, sem sequer olhar para trás. — Não é impossível manipular os instintos de um lobo, principalmente quando ele não está pensando direito.
Amélia apertou os dedos em punhos, engolindo em seco enquanto tentava acompanhar.
— Esse plano de trocar de lugar com ela… — insistiu. — Enganar todo mundo, isso não é… simples. Liana e eu somos parecidas, mas não somos iguais em tudo.
Sandra parou de repente e Amélia quase trombou nas costas dela, freando no último segundo. A loira virou o rosto devagar, o olhar fixando-se em Amélia com uma intensidade que fez o estômago da humana revirar.
— Realmente vocês tem diferenças que apenas lobos podem notar, principalmente o cheiro — respondeu, a voz baixa, perigosa. — Mas nisso podemos dar um jeito. Só precisa ser útil e interpretar seu papel direitinho.
Amélia sentiu um arrepio subir pela espinha.
— Útil como? — perguntou, já arrependida de ter feito a pergunta.
— Precisa ser a substituta perfeita por algum tempo — Sandra respondeu, cada palavra dita com calma calculada. — Enquanto todos estiverem ocupados demais tentando proteger a queridinha falsa, eu vou dar um jeito na verdadeira.
O coração de Amélia disparou, estava desconfiada, mas a vontade de se vingar da irmã era mais forte do que sua autopreservação.
— Esses dois caras… São lobisomens mesmo? — perguntou, tentando desviar o foco da própria insegurança. — Tipo… eles viram lobos… Igual você?
Sandra soltou uma risada curta, seca.
— Você ainda acha que isso tudo é brincadeira?
Antes que Amélia pudesse responder, o corpo de Sandra começou a mudar.
O estalo dos ossos ecoou pela floresta como galhos se partindo. A pele pareceu se distender, os músculos se expandiram de forma antinatural, o rosto se alongando enquanto os olhos claros se tornavam de um amarelo intenso, animal. O ar pareceu vibrar ao redor, carregado de poder bruto e, em poucos segundos, onde antes havia uma mulher, agora estava uma loba clara, enorme, imponente, o pelo espesso refletindo a luz fraca da lua.

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