O cheiro de sangue era pesado, metálico, quase sufocante, impregnando as paredes de pedra e os lençóis brancos agora completamente manchados de vermelho. As enfermeiras se moviam com pressa contida, mãos firmes, vozes baixas demais para esconder o pânico crescente. Liana estava imóvel na cama, a pele pálida, os lábios quase azulados, o peito subindo de forma irregular, como se o corpo estivesse esquecendo como respirar sozinho.
Os olhos verdes permaneciam fechados, os cílios úmidos colados à pele fria, o braço ferido envolto em panos improvisados que não conseguiam conter a hemorragia. O sangue escorria mesmo assim, lento e insistente, como um aviso cruel de que o tempo havia acabado.
— Segurem-na — ordenou Anton, a voz grave, dura, carregada de uma urgência que não admitia discussão.
Duas enfermeiras se aproximaram imediatamente, posicionando-se uma de cada lado da cama, segurando os ombros e as pernas de Liana com cuidado, mas também com força suficiente para conter qualquer reação involuntária. Outra manteve a cabeça erguida, os dedos tremendo levemente ao expor o pescoço, ciente demais do que estava prestes a acontecer.
Anton ajoelhou-se ao lado da cama.
Os olhos vermelhos queimavam nas órbitas, o maxilar travado, as presas já visíveis, longas demais para serem humanas. A mão grande segurou o braço de Liana, os dedos quentes contrastando com a frieza da pele, sentindo o pulso fraco, quase inexistente, sob a ponta dos dedos.
— Vai doer… — murmurou, mais para si do que para ela. — Mas eu não vou deixar você morrer.
O corpo se inclinou lentamente, a boca se aproximando do pescoço exposto, o lobo rugindo por dentro, impaciente, exigindo agir antes que fosse tarde demais.
Foi quando o ar mudou.
Um rosnado profundo, carregado de fúria e posse, atravessou o quarto como um trovão abafado.
— Não.
Anton congelou por uma fração de segundo.
Dante estava a poucos passos da cama, os olhos completamente vermelhos agora, a respiração pesada, o corpo tenso como o de um predador à beira do ataque. Havia culpa naquele olhar, mas ela vinha misturada a algo muito pior: medo. Medo de perder. Medo de repetir o passado. Medo de ver Anton tomando algo que, mesmo roubado, Dante considerava seu.
— Você não vai usar isso pra se vingar de mim — disse Dante, a voz baixa, vibrando de raiva contida. — Não vai transformar minha companheira só pra me ferir.
Anton virou o rosto lentamente.
— Não se meta — rosnou. — Ela vai morrer se depender de você, e eu não vou deixar.
— Eu sei exatamente o que você quer — Dante continuou, avançando um passo. — Não vou deixar você fazer essa merda! Não vai tirar tudo de mim.

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