A escuridão foi a primeira coisa que Amélia percebeu quando voltou a si.
Não era uma escuridão comum, dessas que vêm com o fechar dos olhos ou com um quarto sem luz. Era densa, espessa, parecia colar na pele, invadir os pulmões, pressionar o peito. O chão sob o corpo era frio e irregular, duro o suficiente para fazê-la gemer baixinho quando tentou se mexer, sentindo o corpo inteiro reclamar.
A cabeça latejava.
A última lembrança veio como um estalo doloroso: a estrada, o carro fumegando, o impacto, olhos amarelos na noite.
Um rosnado baixo ecoou no escuro.
Amélia congelou.
O coração disparou tão rápido que pareceu querer saltar pela garganta. O ar faltou, os músculos se retesaram, e, num impulso cego de pânico, ela se ergueu de uma vez, ignorando a tontura que fez o mundo girar.
— NÃO! — gritou, recuando às cegas, tropeçando em algo invisível. — Fica longe de mim!
Outro rosnado respondeu, mais próximo agora, carregado de impaciência.
— Se continuar gritando desse jeito, eu vou te matar — disse uma voz feminina, fria, cortante, surgindo da escuridão como uma lâmina. — Então eu sugiro que fique bem quietinha.
Amélia engoliu em seco.
— Q-quem… quem é você? — perguntou, a voz trêmula, os olhos tentando se ajustar ao breu.
Uma figura se aproximou devagar, os passos calculados, seguros demais para alguém que deveria estar ali por acaso. Quando finalmente saiu das sombras, Amélia conseguiu distinguir o contorno de uma mulher alta, de postura rígida, os cabelos claros soltos pelos ombros, o rosto bonito distorcido por um sorriso nada amigável. Estava completamente nua, mas parecia não se importar com isso.
— Isso não importa agora — respondeu a estranha. — O que importa é se você conhece alguém chamada Liana.
O nome caiu como ácido, a expressão de Amélia mudou no mesmo instante, o medo dando lugar a algo mais sombrio e furioso.
— Aquela desgraçada… — cuspiu, o ódio escorrendo pela voz. — Claro que conheço, ela é minha irmã.
O sorriso da mulher se alargou.
— Irmã… — repetiu, como se saboreasse a palavra. — Interessante.
Amélia sentiu o sangue ferver.
— Então foi ela, não foi?! — acusou, apontando um dedo trêmulo. — Aquela vadia mandou você atrás de mim pra se vingar! Sempre foi assim, sempre se fazendo de vítima enquanto apunhalava pelas costas!
A mulher riu.
Não foi um riso alto, mas carregado de diversão cruel.
— Acha que eu vim a mando daquela vadia? — respondeu, inclinando levemente a cabeça. — Eu gosto tanto daquela maldita quanto você.
Amélia piscou, confusa.
— Como assim?
A loira deu alguns passos à frente, diminuindo a distância entre elas, os olhos brilhando com algo perigoso.
— Se estava indo até a alcateia para fazer algum mal à sua irmãzinha perfeita — continuou — talvez possamos nos ajudar.
O silêncio se estendeu entre as duas, pesado, carregado de possibilidades.
Amélia estreitou os olhos, desconfiada demais para aceitar aquilo sem pensar.
— Por que eu confiaria em você? — perguntou. — Nem sei quem é.
A mulher sorriu de novo, dessa vez mostrando os dentes.
E então os olhos dela brilharam.
Não foi um reflexo. Não foi imaginação.
As íris claras se transformaram em um amarelo intenso, luminoso, animal.
Amélia sentiu o corpo inteiro gelar.
— Me chamo Sandra, e você vai se unir a mim porque eu posso te dar muito mais do que vingança — disse a loba, a voz agora mais grave, mais profunda. — Posso te dar poder.
O medo se misturou com algo perigoso dentro do peito de Amélia.
Desejo.
Inveja.
Ambição.
Ela pensou em Liana, na forma como sempre foi deixada para trás, na maneira como a irmã parecia atrair tudo o que ela sempre quis. Pensou no homem rico, no filho, na proteção, no mundo secreto que se abriu para Liana como se fosse um prêmio.
Um sorriso lento surgiu nos lábios de Amélia.
— Então acho que temos um trato — disse, estendendo a mão.

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