Na mansão Blackstone, o clima era outro.
As luzes estavam baixas, tudo estava silencioso e o mundo parecia, por alguns minutos, quase normal.
Kian estava no meio do sofá grande, jogado de um jeito torto, com as perninhas encolhidas e o pijama amassado, os olhos grudados na TV como se nada no universo fosse mais importante do que aquele desenho idiota com cores demais. Dante estava de um lado, encostado com o braço no encosto do sofá, o corpo relaxado só na aparência, porque o alfa nunca relaxava de verdade. Liana estava do outro lado, com Kian meio deitado no colo, os dedinhos do menino brincando com os botões da camisa que ela ainda usava por cima do vestido destruído. O cheiro de Dante ainda estava nela, e ela odiava o quanto isso a deixava… estranhamente confortável.
Era uma cena fofa demais para o que ela vivia, quase ridículo, na verdade. Ela olhava para Kian sorrindo para a TV e pensava como aquele garotinho podia existir no meio de tanta loucura, no meio de tantos segredos e sangue. O menino ria alto, apontava para a tela, perguntava coisas sem sentido, Dante respondia com aquele tom seco que fingia não ter paciência… mas respondia, e Liana, apesar de tudo, sentia uma paz absurda ali. Como se aquele sofá fosse um lugar seguro dentro de um mundo que queria engolir ela inteira.
— Titia, olha! — Kian disse animado, apontando. — Ele caiu de bunda!
Liana riu baixo, sem conseguir evitar, e bagunçou o cabelo dele.
— Igual você quando corre descalço.
— Eu não caio! — ele rebateu, indignado, e Dante soltou um “hum” que era quase um riso.
Liana virou o rosto para Dante por um segundo, e os olhos dele encontraram os dela. Não havia vermelho ali, sem rosnados, só aquele azul escuro, atento, como se ele estivesse analisando ela o tempo inteiro, mesmo quando parecia distraído.
O peito dela apertou de um jeito estranho, não ruim, e ela desviou o olhar rápido, fingindo que estava tudo bem. Fingindo que não lembrava da mesa do restaurante, das mãos dele, das ordens, do jeito que ele tinha tentado apagar Anton dela à força, e por um tempo até tinha conseguido mesmo. Só que não durava pra sempre, porque, mesmo ali, com o filho dele no colo e o cheiro dele na pele, Liana ainda sentia uma inquietação no fundo do peito.
E então veio. Um aperto súbito, como se alguém tivesse fechado uma mão invisível dentro do peito dela e esmagado. Liana piscou, confusa, achando que era só cansaço, mas o ar ficou pesado na garganta, como se não entrasse direito. Ela tentou respirar fundo e não conseguiu, o coração disparou do nada, descompassado, e uma tontura forte demais fez o mundo se girar ao redor dela.
— Liana? — Dante chamou, percebendo na hora.
A voz dele mudou, ficou mais firme, mais alerta, só que chegava distante até ela, como se Liana estivesse longe dele, mesmo estando bem ao lado.
A ruiva tentou responder, mas a boca ficou seca, e o gosto que subiu na garganta foi amargo, metálico, como sangue que não era dela. Ela levou a mão ao peito, depois ao próprio pescoço, tentando puxar ar.

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