Quando cheguei em casa, estava escurecendo. Tinha passado o dia inteiro no escritório tentando conter a crise da Lotus, falando com advogados, investigadores e o conselho.
Eu não queria ser negativo, mas era difícil ver uma solução pro meu caso. O incêndio só tinha intensificado o meu sentimento de fracasso, mas ultimamente todos os meus esforços pareciam inúteis.
A empresa estava afundando. E agora eu tinha que pedir pra Isabela se expor publicamente pra me salvar.
Abri a porta e o cheiro de comida caseira me surpreendeu.
Franzi a testa.
Inês nunca cozinhava porque eu não deixava. Ela já fazia o suficiente por nós. Tínhamos um chef particular que vinha três vezes por semana e deixava marmitas prontas.
Segui o cheiro até a cozinha e parei na porta.
Isabela estava lá.
Ela usava um avental de gatinhos e flores sobre uma blusa pink de arder os olhos. Os cabelos estavam presos num coque bagunçado, alguns fios soltos caindo sobre o rosto. Os óculos tinham escorregado até a ponta do nariz.
Thales estava sentado no balcão, balançando as pernas, sorrindo enquanto assistia.
— Agora você mexe devagar... — Isabela explicava, segurando uma colher de pau. — Se mexer rápido demais, vai desandar.
— Posso tentar?
— Claro, vem cá.
Ela passou a colher para Thales, que começou a mexer com a língua de fora, concentrado.
Fiquei ali parado, sem saber se deveria entrar. Como se a minha presença pudesse estragar o momento.
Meu coração começou a bater mais acelerado quando me dei conta de que somente comigo, meu filho jamais teria momentos assim. Eu nunca tive momentos assim enquanto crescia.
Foi quando Thales me viu.
— Pai!
Isabela se virou rápido e bateu o cotovelo no canto do fogão. Soltou um gritinho, a mão indo automaticamente para onde tinha sofrido a pancada.
— Tudo bem? — Dei um passo à frente.
— Tudo sim. — Ela esfregou o cotovelo, as bochechas corando. — Não foi nada, já passou.
Eu não sabia o que dizer a seguir, e Isabela também não, porque ficamos em silêncio por vários segundos.
Thales foi o primeiro a falar.
— A Bela tá fazendo estrogonofe. — Ele disse, ansioso. — E batata palha caseira.
— É. — Isabela ajeitou os óculos. — Achei que... sei lá. Pensei em fazer algo diferente hoje.
Olhei para a bagunça na cozinha. Panelas por todo lado. Tábua de corte com restos de cebola. Potes de tempero abertos.

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