Me joguei na cadeira, desejando que ela me sugasse pra qualquer realidade que não fosse a minha.
Fechei os olhos e massageei as têmporas.
Como diabos eu tinha chegado até ali? Achava que estava com tudo sob controle. Foi quando ouvi a porta do escritório se abrir.
— Cara, que susto do caralho! — era Márcio, meu amigo de infância e um dos acionistas da Lótus. — Você precisa colocar um alerta de gatilho na porta da sua casa.
Virei a cadeira para encará-lo, sem entender:
— Do que você tá falando?
Márcio estava com a mão no peito, ofegante, os olhos arregalados de uma forma exagerada.
— O que é aquilo na sua sala?
— Aquilo? Olha, Márcio, meu dia não tá bom. É melhor parar de falar merda e ir direto ao ponto.
Meu amigo notou o sangue na minha mão, e eu rapidamente tentei escondê-la debaixo da mesa.
— Porra, eu sei que ela é feia, mas não precisava se autoflagelar.
Ah. Ele estava falando da Isabela.
— O nome dela é Isabela, e ela é a babá nova do Thales.
— Ela é babá nova?! — Márcio riu, balançando a cabeça. — Meu Deus do céu, de onde você tirou aquela criatura? É tipo a Betty, a Feia... só que mais feia.
— Cala a boca... foi a única que apareceu. Esqueceu que o Thales bota todas pra correr?
— Cara... — Márcio fez uma pausa dramática. — Eu sei que você tava desesperado, mas existem limites. Não tem nada simétrico naquela figura.
Até os óculos são tortos! E quando tentou me cumprimentar, soltou uma risada que parecia um ganso engasgado. Tipo, literalmente um ganso.
— Ela riu? — perguntei, estranhando. — Comigo não fez isso.
— Sorte a sua. Foi o som mais perturbador que eu já ouvi.
Eu ri. Ele continuou:
— A mulher redefiniu o conceito de feiura pra mim. E aquela roupa? Parece que se vestiu no escuro, em um brechó pra idosas.
— Tá. Ela é feia. E daí? Não preciso que seja bonita, só que faça o trabalho dela.
— Como você conseguiu olhar pra ela e pensar "essa é a pessoa ideal pra cuidar do meu filho"? Eu sei que o moleque tá te dando trabalho, mas não acha que pegou pesado?
Revirei os olhos.
— Já são onze babás que desistiram... não é como se eu tivesse muitas opções.
— E você achou que contratar a versão brasileira da Betty, a Feia, ia resolver o problema? Vai deixar o Thales ainda mais traumatizado, irmão.
— Márcio, pelo amor de Deus... — tentei parecer ofendido, mas ainda tava rindo. — Você é um babaca.
— Sou, mas um babaca que se preocupa com você — Márcio se inclinou para mais perto de mim, fingindo seriedade. — Das onze babás, você foi pra cama com quantas? Doze?
— O Thales tá quieto... comportado. E ela ainda não começou a chorar...
— Talvez seja por medo... o moleque nunca deve ter visto alguém tão feio de perto.
— Você é um filho da puta.
— Vamos parar de ofensa e me conta logo como foi a reunião hoje cedo.
— Reunião que você não compareceu, por sinal — falei, voltando a me sentar.
— Eu tive um imprevisto — ele respondeu com um sorriso tão sacana que deu pra saber na hora o tipo de imprevisto. Alguma mulher que o manteve na cama até mais tarde.
Respirei fundo e tentei organizar minha mente antes de dar uma versão resumida da reunião.
— Não sei, cara. Não tenho a menor ideia de como me conectar com o público alvo que eu mesmo propus… É como se eu falasse uma língua completamente diferente da delas. Beleza Verdadeira… Mulheres reais.
— Bom, pelo menos agora você tem um exemplo de mulher surreal — Márcio apontou pra janela.
— Você não existe — dessa vez eu ri de verdade.
— Imagina só se você usasse essa monstrenga como modelo da Lótus. Uma mulher como ela espantaria todo o seu público em cinco minutos. A empresa que seu pai levou trinta anos pra construir teria que fechar as portas.
Assenti enquanto desmanchava o nó da gravata que ainda apertava minha garganta. Márcio estava certo. Uma mulher como ela definitivamente não era o público-alvo da Lótus nem de nenhuma outra marca do mercado.
Ela era o completo oposto de todos os valores que a minha família tinha construído para a empresa até então.
Mas então, por que essa ideia não me causava tanto repúdio?

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