Respirei fundo, procurei pensar que, acontecesse o que acontecesse naquela casa, seria provisório e que nada iria mudar. Eu só economizaria seis meses de aluguel. E mal iria vê-lo. Afinal, aquela casa era imensa.
Carlos me ajudou a carregar as malas até a porta. Quando ela se abriu, dei de cara com Inês.
— Oi, querida! — Ela sorriu pra mim, acolhedora. — Deixa eu te ajudar com isso.
— Nem pensar, Inês! Carlos e eu vamos levar. Não tem muita coisa mesmo.
— Então deixa eu te mostrar seu quarto.
Respirei aliviada quando ouvi meu quarto e imediatamente me senti ridícula. Óbvio que eu estaria em um quarto só meu. Ou eu realmente pensei que teria alguma chance de dividir o quarto do doutor Vinícius? Ele não só não queria, como deixou isso muito claro em um contrato.
"Não compartilhar cama, sofá ou qualquer superfície de descanso por mais de cinco minutos consecutivos."
Segui Inês escada acima, o coração batendo descompassado. Eu tinha subido aquelas escadas algumas vezes, já estava acostumada com a casa, mas uma coisa era ficar ali por algumas horas e outra era pensar que meus próximos meses seriam ali.
Não queria ser uma feia, pobre e ingrata. Estar ali seria o sonho de muita gente e, certamente, eu não tinha do que reclamar. Só que aquele lugar era impessoal demais, intimidador pelo tamanho e frio pela falta de personalidade. Não parecia que existia uma família vivendo ali. Era muito diferente do que eu estava acostumada a chamar de lar.
Eu teria que passar meses em uma mansão, me sentindo uma intrusa.
Inês parou em frente a uma porta no fim do corredor.
— Esse aqui. — Ela abriu. — O doutor Vinícius pediu pra eu arrumar o quarto de hóspedes pra você.
O quarto era enorme. Maior que meu apartamento inteiro. Cama king size, guarda-roupa embutido desses planejados, uma poltrona de leitura perto da janela e até uma escrivaninha.
As cores eram bege. Todas. Da tinta da parede até a roupa de cama.
— Gostou? — Inês perguntou, ansiosa.
— É enorme! Bonito.
Era bonito, sim. Mas era só isso. Era como se eu tivesse entrado num quarto de hotel cinco estrelas. Impessoal.
É porque é temporário, lembrei a mim mesma. Seis meses e você vai embora.
Inês saiu, me deixando sozinha.
Abri a ecobag com cuidado, tirando as poucas coisas que não consegui deixar para trás.
Três canecas floridas que comprei numa feira. Cada uma com um tipo diferente de flor pintada à mão.
Um porta-talheres que eu mesma tinha feito, decorado com margaridas. O tipo de coisa que tiraria o sono do Doutor Vinícius se visse por aí dando sopa na casa dele.
Um quadrinho pequeno com uma aquarela de flores-de-maio que pintei na faculdade.
Coloquei as canecas na escrivaninha. O porta-talheres ao lado. O quadrinho na parede.
Dei um passo pra trás, observando.
Estava melhor.
Era até um pouco engraçado aqueles pequenos pontinhos de cor na imensidão daquele bege.
— Isabela.
Concentrada, levei um susto com a voz grave chamando por mim.
Vinícius estava parado na porta do quarto, as mãos nos bolsos. Terno azul marinho impecável, cabelo perfeitamente penteado.
Quanto tempo ele estava ali?
Nossos olhares se encontraram e senti meu corpo todo arrepiar.
Droga.
Acabei demorando tempo demais observando como, apesar do terno, os músculos dele ficavam marcados sob a roupa. Imaginando como seria o corpo dele por debaixo. E se eu, morando ali, em algum momento, esbarraria com ele sem camisa.
Foco, Bela. Cai na real, minha filha. Se um dia isso acontecer, ele vai criar mais vinte cláusulas pra impedir que se repita.
Vinícius deu um passo pra dentro do quarto, depois parou, como se tivesse percebido que tinha invadido meu espaço.

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