Olhei para as duas malas aos meus pés. Era isso. Era tudo o que eu tinha.
Fiz uma terceira com tudo que eu amava mas que não podia levar: as almofadas floridas, os meus desenhos, o abajur de girassol que comprei num brechó, a manta de crochê colorida que eu tinha feito aos doze anos.
Tudo aquilo que fazia com que eu me sentisse em casa.
Vinícius não tinha falado que eu não poderia levar as minhas coisas, mas, olhando pra casa dele, já entendi o recado de que, naquela casa imensa, moderna, elegante e, principalmente, minimalista, o meu excesso de cor não era bem-vindo.
Mas eu não ia jogar fora. Ia dar a guarda das minhas coisas pro meu amigo e ele que lutasse pra manter tudo de forma segura.
— Tem certeza que não quer levar mais nada? — Juliano estava encostado na porta, os braços cruzados, e cara de arrependido.
— Tenho. — Apontei para a terceira mala. — Essa aqui você guarda pra mim.
Ele franziu a testa.
— Ué. Por que não vai levar?
— São as minhas coisas…
Juliano entendeu o que eu quis dizer com "minhas coisas". E quis tentar contra-argumentar, mas já ergui meu dedo, interrompendo.
— Nem experimenta negar. É o mínimo que você pode fazer depois de ser boca de sacola.
— Eu sinto muito. De verdade. Não pensei que ele fosse perceber...
— Depois a gente conversa sobre isso. — Cortei, pegando minha ecobag. — Agora eu preciso ir.
O motorista que Vinícius mandou — um senhor simpático chamado Carlos — já estava pegando as minhas malas.
— Leva essas duas — apontei. Depois empurrei a terceira na direção de Juliano. — Cuida que o filho é teu.
Meu amigo pegou a mala com as duas mãos, o corpo magricela quase tombando pro lado com o peso.
— Porra, Bela. — Ele ajeitou a postura, os braços finos tremendo. — Que que você pôs aqui dentro? Pedra?

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