Eu nunca tinha visto uma monstruosidade daquelas.
O hambúrguer na minha frente provavelmente alimentaria uma família inteira. Tinha tanta categoria de alimento dentro daquele pão, que fiquei sem entender o propósito.
Hambúrguer de carne vermelha, salsicha, frango ralado, batata palha, queijo, bacon, cebola caramelizada, uma quantidade alarmante de maionese, um molho especial da casa, tudo enfiado dentro de um pão que parecia estar pedindo ajuda pra segurar tudo aquilo lá dentro.
Tinha outro detalhe: eu nunca tinha comido um lanche desses na vida. Não esses que chamam de podrão, pelo menos.
As poucas vezes que comi algo parecido, foram em hamburguerias gourmets e fiz esse esforço por Thales, quando ele era menor e Marcela tinha acostumado ele a comer essas coisas
— Come, rapaz! — Ernesto se jogou na cadeira do outro lado da mesa, cruzando os braços. — O lanche não vai te morder! Normalmente é o contrário.
Isabela lançou um olhar recriminatório pro pai que ignorou e deu de ombros.
Peguei o hambúrguer com as duas mãos e fiquei encarando, analisando como iria morder aquilo. Era tanta meleca de maionese e molho, que começou a escorrer pelos meus dedos.
Dei uma mordida e quase desloquei a mandíbula. Como as pessoas comiam aquilo?
Ernesto ficava olhando pra mim e achando graça.
Que ótimo, eu tinha virado atração de circo pra família da feia.
Eu teria me ofendido mais, não fosse a explosão de sabor na minha boca que me pegou completamente desprevenido. A carne suculenta, o queijo derretido, a combinação do doce da cebola com o salgado do bacon...
Puta merda.
Isso era bom. Muito bom.
— E aí? — Ernesto se inclinou pra frente, ansioso. — Que achou?
Tentei responder, mas minha boca estava cheia. Fiz um gesto com a cabeça que esperava que significasse "muito bom".
Ernesto soltou uma gargalhada.
— Olha a cara dele! — Bateu na mesa. — Filha, acho que o CEO aí nunca comeu um podrão na vida.
Engoli com dificuldade, limpando a boca com as costas da mão porque, pra zero surpresa, não tinha nem guardanapo.
— Está excelente, senhor. Sério.
— Ernesto. Me chama de Ernesto. — Ele pegou o próprio hambúrguer e deu uma mordida enorme. Falou de boca cheia: — Então, você veio aqui só pra comer ou tem algo pra me dizer?
Isabela estava tomando uma fanta uva e quase se engasgou.
Larguei o hambúrguer no prato, me sentindo um completo idiota com as mãos lumbuzadas de gordura e molho. respirei fundo. Era melhor falar logo de uma vez. Ficar enrolando seria pior.
— Na verdade, Ernesto… Senhor Ernesto — Corrigi rápido. — Vim pedir a mão da sua filha em casamento.
Ernesto parou de mastigar. Me encarou por longos segundos. Depois engoliu devagar, colocou o hambúrguer no prato e limpou as mãos no avental.

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