Eu nem sei há quanto tempo estava parada em frente ao guarda roupa. Olhava pros cabides como se do completo nada um milagre fosse acontecer... alguma roupa que combinasse comigo iria se materializar em algum cabide e me transformar em outra pessoa.
Comecei a dar risada sozinha.
Além de feia, tava ficando louca.
Claro que nada combinava.
Num ato de rebeldia, ou mera cafonice, eu tinha decidido que iria vestir tudo que eu achasse legal.
Se achasse uma calça animal print verde neon bonita e uma jaqueta laranja berrante legal, eu iria usar as duas. E ao mesmo tempo.
Que se foda.
Considero um dos privilégios de ser feia.
Acontece que especificamente nesta noite eu não estava tão confiante em sair por aí exibindo a minha feiura com orgulho. Só por essa noite eu queria ser minimamente normal.
Tarde demais pra isso. Pensasse nisso antes de montar um guarda roupa caótico como resposta revoltada aos padrões impostos pela sociedade.
Quer saber? A calça listrada ficaria ótima com aquela blusa de poá. E o colete xadrez por cima daria o toque final perfeito.
Peguei as peças, coloquei na cama. Olhei de novo.
Merda.
Por que eu tava me importando com isso?
Puxei a gaveta de baixo. Mais roupas coloridas, estampas chamativas, enfim, nada que uma pessoa normal usaria enquanto o noivo CEO bonitão pedisse a sua mão.
Que piada.
Meu pai nem era sogro de verdade. E Vinícius definitivamente não era meu noivo.
Então por que meu estômago tava embrulhado?
Joguei a blusa de poá de volta no guarda-roupa e me esforcei em encontrar outra.
Passei a mão numa peça mais séria. Uma das únicas que eu tinha sem ser colorida.
Era bege.
A comprei há anos, quando ainda achava que me vestir como todo mundo ia fazer diferença.
“Isabela, você precisa parecer mais... profissional.” A coordenadora do estágio tinha dito, olhando pro meu conjunto amarelo e rosa como se fosse um crime contra a humanidade.
Tentei me adequar. Tentei mesmo.
Comprei algumas peças de roupa como calça preta, blusa branca e sapato social básico. Qualquer coisa mais sóbria que parecesse com roupa de gente séria.
Durou duas semanas até eu perceber que não fazia diferença nenhuma.
As pessoas continuavam me olhando torto. Continuavam rindo quando eu passava. Continuavam me tratando como se eu fosse de alguma espécie inferior.
A única diferença é que eu era maltratada e infeliz.
Larguei a blusa bege no chão e voltei pras cores.
Eu não ia mudar o meu jeito por nada e nem por ninguém.
Eu era feliz assim… não era?
A lembrança veio antes que eu pudesse impedir.
Rafael.
Merda.
Não queria pensar nele agora. Ou nunca mais, na verdade.
Ele tinha sido meu colega de turma na faculdade. Simpático. Engraçado. Me chamava pra estudar na biblioteca. Achei que finalmente tinha encontrado alguém que via além da minha aparência.
A vida toda tirando notas máximas pra ser tão burra assim.
Que idiota.

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