Thales estava sentado na cama, os pés balançando sem tocar no chão, me olhando com aqueles olhos enormes que me faziam sentir a pior pessoa do mundo. Eu tinha pensado nas mil formas de contar isso a ele.
Tinha dormido super mal imaginando que o menino iria ficar revoltado. E quando finalmente tinha decidido como começar a conversa, fiquei repetindo um diálogo imaginário na minha cabeça.
Bom, não só na minha cabeça, eu tinha chamado o Juliano pra me ajudar… não sei se tinha sido uma boa ideia porque Juliano é um péssimo ator de improvisação mas não podia mais adiar. Essa conversa tinha que acontecer.
Não iria ser nada fácil, minha consciência tinha começado a pesar… porque agora, com ele ali na minha frente, todo pequenininho e vulnerável, eu só conseguia pensar: que tipo de adulto mente pra uma criança de dez anos?
Pelo jeito um CEO desesperado e uma babá feia falida.
— Então... — comecei, ajeitando os óculos. — Tem uma coisa que eu preciso te contar.
Thales parou de balançar as pernas.
— Você vai embora de novo?
A voz dele saiu tão baixa, tão cheia de medo, que meu peito apertou.
— Não. Na verdade, é o contrário. Vou ficar… digamos que você vai me ver ainda mais agora.
Ele franziu a testa, confuso.
— Seu pai me pediu em casamento. — completei de uma vez.
Isso. Não foi tão difícil. Como arrancar um band aid.
Thales ficou em silêncio… merda.
Juliano era mesmo um péssimo companheiro de improviso.
O que faço agora? Ele não vai falar nada?
Depois de alguns longos minutos de silêncio constrangedor, Thales voltou a falar.
— Você e meu pai vão casar?
O tom de voz dele estava repleto de espanto que confesso, me ofendi um pouquinho. Mas tudo bem, eu também não iria acreditar que Vinícius, o presidente da Lotus, iria querer se casar comigo.
— Não de verdade. — Levantei as mãos, rápida. — É de mentirinha. Tipo como os atores fazem nos filmes.
— Bela, eu sei o que é de mentinha. Eu tenho dez anos, não sou mais um bebê.
Eu concordei com a cabeça.
— Claro.
— Mas por quê?
Lá vamos nós…
Eu não sabia se o que iria dizer a seguir seria precipitado mas achei melhor não ficar entrando num espiral de mentiras. Se eu estava contando a verdade, então seria uma verdade por completo.
— Sua avó quer que você more com ela.
— Eu sei. — Thales deu de ombros. — Ela falou ontem no telefone.
Então ele já sabia… e pelo jeito não tinha reagido tão mal assim. Parecia estar aceitando bem uma situação desse tipo.
— E o que você achou disso? Quer continuar morando com o seu pai ou ir com ela?
Ele olhou pro chão. Pros próprios pés balançando de novo.
— Não sei.
Senti meu coração apertar. Thales não parecia estar mentindo. Simplesmente parecia perdido de verdade, sem saber onde pertence.
— Tudo bem não saber. — Passei a mão nos cabelos dele. — Mas seu pai quer que você fique. E pra isso, precisa provar pro juiz que consegue cuidar de você.
— Ele quer mesmo?
A pergunta dele me fez entender o quanto o menino se sentia afastado do próprio pai. E como doutor Vinícius não conseguia demonstrar o quanto o filho era importante na vida dele.
Muito importante, porque tinha pedido a minha mão em casamento.
Eu sei do meu valor e sempre vou lutar pra ser respeitada, mas não posso ser delirante. Sei bem que um homem como ele, só iria cogitar estar com alguém como eu se estivesse totalmente desesperado.
— Quer… não conheço muito seu pai, mas posso garantir que é o que ele mais quer no mundo.
Thales deu um leve sorriso, que tentou disfarçar em seguida.
— Fingir casar com você vai fazer isso? — perguntou, fazendo cara de confusão.
Quando ele colocou desse jeito, soou ainda mais ridículo.
Uma saída desesperada e infantil. Até uma criança de dez anos conseguia enxergar isso.

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