Isabela chegou com os óculos tortos e uma blusa amarela que doía nos olhos. Tentei ser positivo e pensei que pelo menos com essas cores berrantes jamais seria atropelada.
Que sorte a minha. Não seria viúvo tão cedo.
Não queria parecer mal agradecido, eu podia dançar de alegria. Isabela estar aqui significava que provavelmente ela tinha aceitado o acordo e com isso, que eu tinha chance de manter a guarda de Thales.
Talvez o que tivesse acontecido fosse que ficar algumas horas sem vê-la era o suficiente para intensificar a feiura. Ou então saber que, finalmente, o relacionamento falso estava prestes a acontecer tinha me feito cair na real.
Eu tava fodido.
Ela parecia ter se arrumado às pressas; o cabelo não sabia o que era uma escova e estava preso em um rabo enozado.
Aquela mulher com um ninho de pomba no lugar dos cabelos seria minha noiva em breve.
Respirei fundo, forçando o rosto a ficar neutro.
Ela veio. Isso é bom. Não? Não seja ingrato!
Thales saiu correndo antes que eu pudesse falar qualquer coisa.
Vi meu filho se jogar nos braços dela. Isabela cambaleou com o impacto, mas segurou ele firme, passando a mão pelos cabelos de Thales.
— Oi — ela disse, a voz saindo abafada porque o rosto do Thales estava enterrado no ombro dela.
— Achei que você não ia voltar.
— Pensou que iria se livrar de mim assim tão fácil?
Fiquei parado, observando. Thales agarrado nela como se fosse a única pessoa no mundo. E Isabela segurando ele de volta, sem pressa, sem desconforto.
Meu filho nunca me abraçou assim.
Engoli o nó na garganta.
Isabela levantou o olhar e me viu. Não sorriu. Só fez um aceno com a cabeça.
— Doutor.
— Isabela.
Thales finalmente se afastou. Isabela ajeitou os cabelos dele com um carinho que me fez sentir algo estranho no peito.
— Vai se arrumar pra escola — ela disse, passando a mão na bochecha dele. — Ainda dá tempo.
Ele assentiu e saiu correndo escada acima.
Ficamos ali, eu e ela a alguns metros seguros de distância.
— Preciso falar com você — Isabela disse, ajeitando a alça da ecobag. — A sós.
— Claro. Vem.
A levei até o escritório. Fechei a porta atrás de mim e apontei pra cadeira em frente à mesa.
Ela não sentou. Ficou de pé, as mãos apertando a alça da bolsa.
— Eu aceito — disse, direta. — Vou fingir ser sua noiva.
Algo dentro de mim se revirou. Era o que eu queria.
Queria, não.
Precisava.
Mas meu coração começou a bater mais rápido e eu não conseguia parar de hiper analisar a mulher na minha frente.
Eu não queria ser um babaca. Pelo menos não um babaca estilo Márcio, mas era fácil fingir ser uma pessoa melhor quando não está envolvido em um problema como esse. E o que mais me aterrorizava é que quando ela sorria... quando ela abraçava meu filho como fez momentos atrás, nada disso parecia importar. A aparência dela não era um problema...
Eu sentia meu coração acelerar e uma vontade estranha de estar mais perto... eu não sabia o que tava acontecendo comigo. Só esperava conseguir sair inteiro desse acordo e manter tudo sob controle.
Diz alguma coisa logo...
— Fico feliz. — menti.
— Mas tenho condições.
Claro que tem.
— Tudo bem. Pode falar.
Isabela respirou fundo, como se estivesse reunindo coragem.
— Primeira condição: a gente conta a verdade pro Thales.
Franzi a testa.
— O quê? Não. Isso não faz sentido. Se ele souber que é mentira...
— Ele precisa saber — ela me interrompeu, firme. — Não vou mentir pra ele. Já passou por coisa demais. Merece saber a verdade.
— Isabela, se ele souber, pode contar pra alguém sem querer. Pode estragar tudo.
— Não vai. — Ela deu um passo na minha direção. — Thales é mais esperto do que você pensa. E além do mais, se a gente mentir pra ele sobre isso, ele nunca mais vai confiar em mim. Ou em você.
Passei a mão pelo rosto, tentando pensar.
Merda.

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