Dez da manhã e eu ainda estava sentado à mesa do café, olhando pro Thales mastigar o pão com geleia em silêncio.
Isso não era normal.
Eu deveria estar no escritório há pelo menos meia hora. Já devia ter checado os e-mails, respondido o Márcio, preparado a reunião das nove e meia. Mas ali estava eu, fingindo estar resolvendo pendências enquanto mexia no celular.
Eu estava esperando ela.
O único som na cozinha era o barulho da mordida do Thales no pão.
Depois o silêncio de novo.
Engoli o café. O líquido desceu queimando.
Olhei pro relógio na parede. Os ponteiros pareciam se arrastar de propósito. Cada segundo uma eternidade.
Peguei o celular de novo. Nada. Nenhuma mensagem dela confirmando que viria.
Merda.
Talvez ela tivesse desistido de verdade. Talvez aqueles dez mil reais fossem o suficiente pra ela sumir da minha vida.
A ideia me incomodou mais do que deveria.
— E a escola? — forcei a pergunta. — Como foi ontem?
Thales deu de ombros, sem levantar os olhos do prato.
— Normal.
Normal.
Assenti com a cabeça, como se aquilo significasse alguma coisa. Como se eu soubesse o que fazer com essa resposta.
Outra mordida. O pão esmagando entre os dentes dele.
Mais um gole no meu café.
Que merda de conversa.
Eu queria perguntar se ele tinha se divertido com os amigos. Se tinha aprendido algo interessante. Se estava feliz.
Mas as palavras não saíam. Ficavam presas na garganta, pesadas demais.
Se Isabela tivesse aceitado o acordo, já deveria ter chegado. Eu tinha que aceitar o não dela. Que mesmo oferecendo uma quantidade considerável de dinheiro, ela não quis saber de me ajudar.
Mas se ela não aceitar... Isso significaria que perderia a guarda do Thales pra Valéria.
Que meu filho teria que ser criado da mesma forma que Marcela foi… como eu fui.
Me levantei e fui até a janela. Fiquei olhando pro maldito jardim. Lembrando de quando ela estava lá, sorrindo, com Thales.
Daquele jeito desajeitado dela, os óculos tortos refletindo o sol, explicando sobre as flores-de-maio como se fosse a coisa mais importante do mundo.
E Thales. Thales prestando atenção. Sorrindo.
Quando foi a última vez que meu filho sorriu pra mim daquele jeito?
O barulho da cadeira arrastando no chão fez Thales me olhar. Ele não disse nada, só me acompanhou com os olhos até eu parar em frente ao vidro.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Babá "Feia" e o CEO