Meus pés doíam.
O salto que parecia boa ideia de manhã, agora era pura tortura. Cada passo na calçada quente era uma lembrança de que eu era uma idiota.
Peguei o celular, checando o horário. O ônibus que eu pegava passava dali a dois minutos. Se eu corresse, talvez conseguisse.
— Isabela!
A voz dele me fez parar no meio da calçada.
Tá de sacanagem.
Me virei e vi Vinícius correndo na minha direção. Sem o paletó. A gravata torta. O cabelo sempre tão perfeitamente penteado agora caindo sobre a testa.
— O que você quer? — perguntei, sem paciência nenhuma.
Ele parou na minha frente, ofegante.
— Eu... preciso falar com você.
— Já ouvi o suficiente do que você tinha pra dizer. — Virei as costas e continuei andando.
Tentava com todo o esforço não mancar, pra manter o mínimo de dignidade.
— Espera! Por favor!
— Não tenho tempo pra isso, doutor. Vou perder meu ônibus.
— Então deixa eu te dar uma carona!
Parei de novo, virando pra ele.
— Uma carona? Sério? Você acha que eu vou aceitar alguma coisa vinda de você depois de tudo?
— Não é... — ele passou a mão pelos cabelos, claramente sem saber o que dizer. — Olha, eu só quero conversar.
— Tenho um minuto antes do ônibus chegar.
Ele ficou me olhando, a boca aberta, tentando encontrar palavras. Quase um minuto se passou e ele não tinha conseguido falar nada.
Dei meia volta e comecei a correr em direção ao ponto.
Foi quando um carro passou em alta velocidade bem ao lado da calçada. Havia uma poça de água enorme e eu não tive tempo de desviar.
A água me atingiu em cheio.
Do cabelo aos pés.
Fiquei parada, pingando, sentindo a água fria e suja escorrer pelo meu rosto, pelas minhas roupas. Os óculos estavam completamente embaçados.
Tirei eles, limpei com a barra da blusa — que também estava encharcada — e coloquei de volta.
Tenho a impressão de que situações assim só acontecem com pessoas como eu.
Não importa o quanto eu tente manter a dignidade, sempre algo vexatório vai acontecer comigo.
Mas eu não tive tempo pra me vitimizar, porque o ônibus passou bem na minha frente. Acenei, desesperada, mas o motorista nem olhou. Já estava longe demais.
Perfeito. Simplesmente perfeito.
— Bela...
Vinícius estava parado a alguns metros, me olhando. Parecia estar segurando o riso.
— Nem pensa em rir — avisei, apontando o dedo pra ele. — Nem. Pensa.
Ele ergueu as mãos em rendição, mas o canto da boca tremeu.
— Não tô rindo.
Olhei pro ponto de ônibus. Uma placa velha informava os horários. O próximo só em quarenta minutos.
— Deixa eu te levar — Vinícius disse, a voz mais séria agora. — Por favor.
— Não precisa. Vou ligar pro Juliano.
Peguei o celular da ecobag — que por sorte era impermeável — e disquei.
Fora de área.
Vi o sorrisinho de canto aparecer no rosto dele. Aquele sorriso sacana que dizia "eu sabia".
— Nem vem.
É incrível como perder qualquer medo dele — por não depender mais do salário nem do vínculo empregatício — me libertou. Era maravilhoso poder falar com aquele CEO mimado do jeito que me dava vontade.
Ele deu de ombros, as mãos nos bolsos.

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