Márcio estava jogado na poltrona da minha sala, os pés em cima da mesinha de centro enquanto eu andava de um lado pro outro, tentando processar o que Valéria tinha acabado de me dizer.
— Cara, você tá ferrado — Márcio disse, balançando a cabeça. — A Valéria vai tirar o Thales de você. E se deixar, tira a presidência também.
Parei de andar e o encarei.
— Você não tá ajudando.
— Desculpa. — Márcio ficou em silêncio por alguns segundos, o olhar perdido no teto.
Levantou da poltrona e começou a andar pela sala, a mão no queixo, como costumava fazer quando estava prestes a ter alguma ideia de merda.
— Tive uma ideia — ele disse, parando de repente. — Mas cara, eu sei que você não vai gostar.
Suspirei, massageando as têmporas.
— Fala logo. Eu nunca gosto do que você fala mesmo.
Márcio se aproximou, as mãos nos bolsos, aquele sorriso presunçoso no rosto.
— Se você fosse o juiz — ele começou, devagar —, você daria a guarda de uma criança pra um playboy nepobaby mulherengo, que sai em todas as páginas de fofoca do país pegando uma modelo atrás da outra?
A pergunta me acertou como um soco no estômago.
Merda.
Eu queria dizer que sim. Claro! Eu daria a guarda pro pai.
Mas ninguém em sã consciência faria isso/
— Não — admiti, a voz saindo rouca.
Márcio voltou pra poltrona, se jogando nela com um suspiro dramático irritante. Apoiou os pés na mesinha de novo, cruzando os braços atrás da cabeça.
— Então qual a solução mais lógica?
Olhei pra ele sem entender nada.
— Minha nossa, irmão. — Ele balançou a cabeça, rindo. — Como você é lerdo. O que seria de você sem mim?
— Márcio…
— Bom, a solução é simples. — Ele me encarou, sério pela primeira vez na conversa. — Você precisa de um relacionamento de mentira.
Fiquei parado por alguns segundos, tentando assimilar o que ele tinha acabado de dizer.
Depois comecei a rir. Aquilo era ridículo.
— Nem pensar. — Balancei a cabeça, ainda rindo. — De todas as ideias de merda que você já teve, essa foi a pior.
— Calma, eu ainda não acabei. — Márcio se inclinou pra frente, os olhos brilhando. — Tem mais.
Merda. Eu conhecia esse olhar.
Era o olhar que Márcio fazia toda vez que estava prestes a dizer algo que eu odiaria.
— Eu já tenho a candidata perfeita pra isso.
Ele parou de falar, me encarando com aquele sorriso sacana.
Arregalei os olhos, gesticulando com as mãos.
— E quem é? Fala logo, porra!
— A flor mais delicada do jardim — Márcio disse, a voz carregada de ironia. — Uma mulher maravilhosa de beleza verdadeira que surgiu na sua vida só faz três dias.
Não.
Não, não, não.

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