Entrei no escritório e me surpreendi com o que vi: Valéria já estava lá, sentada na minha cadeira. Na cadeira da presidência.
— Eu ia perguntar se você queria se sentar, mas vejo que já está à vontade.
Ela deu de ombros, os dedos batendo levemente no braço da cadeira de couro.
— Aproveite enquanto pode. — A voz dela era calma. — Essa cadeira não vai continuar sendo sua por muito tempo.
Senti o sangue ferver, mas respirei fundo. Não ia dar a ela o prazer de me ver perder o controle. Me sentei na cadeira em frente à mesa – na cadeira de visitante, na minha própria sala – e fingi indiferença.
— Mas então, a que devo o prazer da sua ilustre visita? Achei que ia ficar com o Thales hoje à tarde.
— E estava. Ainda estou. — Valéria se inclinou na cadeira, os olhos fixos em mim. — Ele vai dormir comigo. Minha empregada está cuidando dele agora.
Algo no tom dela me deixou nervoso. Não era a provocação inofensiva de sempre. Ela parecia decidida a me ferrar de verdade agora.
— Falar sobre o quê?
Valéria ficou em silêncio por alguns segundos, como se saboreasse o momento. Depois se levantou da cadeira com calma, contornou a mesa e parou bem na minha frente. Olhou pra mim de cima, com o queixo erguido.
— Sabe, durante todos esses anos eu fingi que te suportava. — Ela me encarou com uma expressão de desprezo. — Não porque eu fizesse questão, mas pela Marcela. Minha filha, apesar de tudo o que você fez pra ela, ainda tinha consideração por você.
— Eu nunca fiz nada pra sua filha — rebati, sentindo a mandíbula travar.
Valéria deu uma risada sarcástica.
— Tem razão. Nunca fez nada por ela. Você a abandonou quando mais precisava de você.
Deixou que criasse o Thales sozinha.

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