Ele estava bem de manhã. O que diabos aconteceu na escola?
Parei em frente à porta do quarto dele e bati levemente.
— Thales? Posso entrar? Você esqueceu sua mochila.
Nada. Ele estava me ignorando.
— Thales, eu sei que você tá aí dentro.
— Vai embora.
Encostei a testa na porta, respirando fundo.
— Thales, por favor. Só quero te dar sua mochila e ver se você tá bem.
Alguns segundos de silêncio depois, ouvi passos arrastados e a porta se abriu apenas em fresta. O menino apareceu, os olhos vermelhos, o cabelo bagunçado.
— Tá... tá, pode me dar.
A voz dele saiu diferente, com uma leve gagueira que eu nunca tinha ouvido antes.
— Posso entrar?
— N-não precisa.
— Thales...
— Eu disse que não precisa! — ele tentou pegar a mochila da minha mão, mas fez uma careta de dor e segurou o lado do corpo.
Não pensei duas vezes. Empurrei a porta devagar e entrei no quarto. Thales recuou alguns passos, os olhos arregalados.
— Ei, calma. — falei, fechando a porta atrás de mim. — Só quero conversar.
— Você n-não pode ajudar.
— Por que não?
Ele balançou a cabeça, limpando os olhos com as costas da mão.
— Porque... porque você vai contar pro meu pai.
Ah. Então era isso.
— Thales, eu não vou contar nada pro seu pai se você não quiser. Prometo.
— Promete mesmo?
— Prometo. Mas preciso que você seja honesto comigo, tá bom?
Ele hesitou, mordendo o lábio inferior. Depois de alguns segundos, veio até a cama e se sentou ao meu lado, mantendo distância. Os ombros ainda estavam tensos, o corpo todo em posição defensiva.
Thales desviou o olhar, fixando os olhos no chão.
— Foi só... foi só uma brincadeira.
Senti o sangue ferver.
Brincadeira.
Essa palavra maldita que adultos usam pra minimizar o bullying.
— Que tipo de brincadeira?
— Eles... eles me empurraram.
A voz dele saiu tão baixa que eu quase não consegui ouvir.
— Empurraram?
— É. Na hora do intervalo. Eu tava sozinho e... e eles vieram e começaram a me empurrar. Falaram que eu era esquisito e que... — a voz dele falhou. — Que minha mãe tinha morrido porque não aguentava ter um filho feio e chato igual a mim.
Filhos da puta. Como é que crianças podiam ser tão cruéis?
Bom, eu sabia o quão cruéis podiam ser. Me lembro bem.
— Um deles me deu um soco aqui. — ele continuou, apontando pro lado do corpo. — E quando eu caí, o outro me chutou.
Fechei os olhos. Era como se eu revivesse todas as ofensas que tinha ouvido enquanto crescia.
— Deixa eu ver.
Ele hesitou, mas depois de alguns segundos levantou a camisa com cuidado.
O lado esquerdo do corpo dele estava roxo. Uma mancha enorme que ia das costelas até quase a cintura. Havia também alguns arranhões e o que parecia ser a marca de um chute.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Babá "Feia" e o CEO