Não, não, não. Isso não podia estar acontecendo!
Girei a chave mais uma vez, pisando no acelerador com força, quase quebrando o pedal. O Fiat Uno 93 respondia com seus últimos suspiros de motor afogado.
— Pelo amor de Deus, funciona! — implorei, batendo a mão no volante.
Eram oito e quinze da manhã e eu deveria ter chegado na casa do doutor Vinícius meia hora atrás. Era a minha segunda pisada de bola grave em apenas dois dias.
Eu estava prestes a entrar em completo pânico quando ouvi passos se aproximando. Juliano apareceu correndo, ainda de pijama, os cachos mais bagunçados que o normal e uma expressão preocupada.
— Bela! Tá tudo bem? Cheguei o mais rápido que consegui.
— O carro não quer pegar de jeito nenhum!
Ele se aproximou e deu uns tapinhas no capô.
— Deixa eu dar uma olhada.
Meu amigo começou a mexer em algumas peças, com a mesma cara concentrada que fazia quando encarava a tela preta do computador, cheia de código fonte. Depois de alguns minutos, balançou a cabeça.
— Bela, acho que o problema é sério. Pode ser a bomba de combustível, ou o motor de arranque. Ou os dois.
Senti um frio no estômago. Encostei as costas no carro e deslizei até sentar no chão frio da calçada, não me importando se a calça jeans ia ficar suja.
— Perfeito. Simplesmente perfeito. — suspirei enquanto meus óculos escorregavam pelo nariz, de novo. Dessa vez deixei por lá mesmo. Pra quê lutar contra o inevitável?
— Calma, vamos ligar pro seu pai. O Ernesto entende dessas coisas, deve saber como…
— Não! Não vou ligar pro meu pai.
— Mas Bela…
— Juliano, você mesmo disse que a hamburgueria tá mal das pernas. A última coisa que meu pai precisa é se preocupar comigo. E mesmo se ele viesse, ia demorar pelo menos uma hora pra chegar até aqui.
Puxei o celular do bolso e olhei o horário. Resmunguei e escondi meu rosto nos meus joelhos.
— Você podia ter pego um Uber desde o começo — Juliano pontuou, sentando no chão ao meu lado.
— Com que dinheiro, Ju? E além do mais, menti que tinha carro pro Doutor Vinícius…
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, processando o que eu tinha acabado de falar.
— Por que você mentiu que tinha carro?!
— Olha, eu não me orgulho disso… mas eu estava nervosa e tudo aconteceu tão rápido. — Juliano me encarava com uma sobrancelha arqueada — Eu pensei que ter um carro me daria alguma vantagem, já que faz parte do meu trabalho levar o menino pra um milhão de atividades extra curriculares.
Parei de falar um pouco, pensando na ironia da situação atual.
— Mentir não me serviu de muita coisa, provavelmente não tenho mais emprego. — Apoiei o rosto nas mãos, sentindo o peso de mais um fracasso. — Dois dias, Juliano. Em dias eu perdi o menino e não consegui chegar no trabalho.
Meu amigo colocou o braço ao redor dos meus ombros, o gesto desajeitado mas carinhoso.
— Ei, relaxa. Vamos dar um jeito. Posso te levar de moto.
Olhei para ele com uma expressão de ternura.
— Não vou te atrasar pro serviço?
— Bela, deixa de besteira. Eu faço home office.
Foi quando ouvi o som de um carro parando na calçada. Olhei na direção do barulho e meu coração quase parou.
Era uma BMW preta. Uma BMW nunca tinha parado no meu bairro.
— Droga, é ele — sussurrei, me levantando rapidamente e tentando arrumar a roupa.
Juliano se levantou também, curioso, enquanto o carro se aproximava. Quando a janela se abriu, revelando o rosto perfeito do meu chefe, senti meu estômago dar um nó.
— Isabela.
— Doutor Vinícius, eu... eu posso explicar.
Ele desligou o motor e saiu do carro. Ele estava de óculos escuros estilo aviador, terno cinza-escuro desabotoado e uma camisa preta por baixo, revelando só o suficiente do contorno dos músculos do abdômen pra minha imaginação completar o resto. Juliano ficou visivelmente impressionado, e não o culpo. Ver o doutor Vinícius pessoalmente era uma experiência e tanto para nós, meros mortais.
— Aquilo não tá funcionando? — ele olhou pro carro como se fosse algum item de museu. — Modelos mais antigos costumam ser... temperamentais.
Temperamentais. Curioso justo ele dizer isso.

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