Cael Sterling.
Maldita hora em que a Mia decidiu sequestrar o Theo para me dar a porra de um "dia livre". É sábado. Sábado, caralho. O que diabos um homem como eu deveria fazer de útil em um sábado à tarde?
Em vez de estar em casa, aproveitando o silêncio raro, agora me encontro arrastado para o meio desse maldito shopping lotado, sendo obrigado a ouvir o David tagarelar sem parar sobre a nova "mulher misteriosa" com quem ele está saindo. Segundo ele, o aniversário dela é em alguns dias e ele precisa desesperadamente do presente perfeito.
Como se eu fosse o maior especialista em romance do mundo.
Para piorar ou não, o "combo sequestro" da Mia foi completo: ela também raptou o Henry. "Direitos de madrinha", foi a desculpa esfarrapada que ela usou, exatamente do mesmo jeito que fez quando levou a Savannah e o Ethan da primeira vez, e sim ela também os levou dessa vez.
Ao menos, preciso dar o braço a torcer: desta vez ela teve a decência de avisar que estava levando as crianças. Só esqueceu, convenientemente, de dizer para onde.
Nós já deveríamos estar vacinados contra as loucuras da minha irmã, mas a verdade é que a cada semana ela se supera. O que nos resta fazer é sentar, respirar fundo e esperar o furacão passar.
Pensando bem, o aniversário dela também está chegando, o que me lembra que vou ter que gastar neurônios pensando em algo para dar a ela. Que dor de cabeça.
- Caramba, Cael... Se eu soubesse que você pretendia sair por aí caçando Pokémon, eu nem tinha te chamado, irmão.
A voz estridente de David ecoa logo ao meu lado, cortando meus pensamentos e me fazendo travar abruptamente no meio do corredor do shopping.
Desvio os olhos da tela do celular para encará-lo. Pisco algumas vezes, tentando processar a tremenda asneira que aquele idiota acabou de falar. Eu? Caçando Pokémon?
- Que merda de caçar Pokémon o quê, David? - As palavras metralham para fora da minha boca antes que eu consiga colocar um filtro. - Andou fumando nota de cem e fingindo que é maconha, por acaso?
Assim que a frase ecoa, eu respiro fundo, praguejando mentalmente. Que inferno. Estou convivendo tanto com aquela garota irritante que estou pegando a mania dela: ter sempre uma maldita resposta ácida na ponta da língua.
David paralisa.
Eu paraliso.
Trocamos um olhar tenso por dois segundos e, de repente, aquele imbecil solta uma gargalhada escandalosa. Bem ali, no meio do shopping, com dezenas de pessoas passando de um lado para o outro e nos encarando como se fôssemos dois fugitivos do hospício.
- Cara... Você está passando tempo demais com a babá do Theo, irmão - David consegue dizer entre os risos, me fazendo congelar por inteiro. - Tá até falando igualzinho a ela!
Fico estático, apenas assistindo enquanto ele continua rindo e volta a caminhar como se não tivesse acabado de jogar uma bomba no meu colo.
- Anda, Cael! Eu ainda tenho que comprar o presente da minha garota... - ele me chama lá na frente, sem olhar para trás.
Respiro fundo, tentando recuperar a compostura. Olho novamente para a tela do celular. O pontinho vermelho pisca ritmicamente no mapa, indicando o setor da praça de alimentação. Solto um suspiro anasalado.
Talvez eu realmente esteja caçando algo... Só não os monstros virtuais que o David mencionou.
Certo, eu admito. Talvez - e apenas talvez - eu tenha instalado um aplicativo em segundo plano no celular dela enquanto ela dormia, algumas semanas atrás. Mas vamos deixar claro: eu não tenho acesso a nada que invada a privacidade dela.
Não olho conversas, não vejo fotos, não me importo com o que ela digita. Mas eu consigo localizá-la em qualquer coordenada do planeta, com precisão milimétrica.
Julguem-me o quanto quiserem. Eu estou apenas cuidando e zelando pelo bem-estar da minha mul... Quer dizer, da babá do meu filho. Isso, a segurança da funcionária.
Hannah Brooks anda pela rua tão distraída, com a cabeça no mundo da lua, que seria perfeitamente capaz de ser sequestrada e só notar quando os criminosos pedissem o resgate. Aquele rastreador é uma medida puramente analítica. Permite-me monitorar sua localização e mantê-la segura.
Tudo pelo bem maior.
É apenas gerenciamento de riscos, nada mais.
- Então, irmão, já sabe o que vai dar para a Mia? - A voz do David me puxa abruptamente de volta para a realidade de tijolos e vitrines.
Pisco algumas vezes, limpando a mente, e noto que paramos em frente a uma joalheria de alto padrão.

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