Mia Sterling.
Na verdade, minha mente ainda estava tentando processar o milagre. Quem teria sido o santo - ou a santa - que conseguiu a façanha de fazer o grande Cael Sterling abandonar seu império de vidro e aço por uma tarde inteira para se sujar de tinta e brincar de blocos?
Senti meu peito aquecer por dentro, um calor bom que há muito tempo eu não experimentava em relação ao meu irmão. Fiquei ali, estática, observando o vídeo que David havia gravado em segredo, apertando o play para reassistir mais de uma vez, fixando os olhos no sorriso genuíno do meu sobrinho.
É só que... já faz tanto tempo. Cael não é mais aquele irmão imprudente, leve e despreocupado com quem eu cresci e dividi segredos na infância. É claro que ele cresceu, o tempo passou e todos nós amadurecemos a duras penas. Mas há uma parte dolorosa dentro de mim que sabe exatamente o peso real dessa mudança. Sei que a armadura que ele usa hoje se deve àquela noite fatídica, três anos atrás.
Eu nunca vou esquecer o som da voz dele quando ligou, completamente desesperado, para mim e para nossos irmãos. Ele mal conseguia respirar enquanto dizia que Serena havia ido embora, que tinha pegado suas coisas e partido.
Boa parte da frieza de Cael hoje se deve àquela tentativa falha de suicídio no banheiro do seu quarto principal.
Se deve à imensa e assustadora quantidade de comprimidos que ele tomou naquela noite escura, ao sangue que encontramos espalhado pelo chão frio de porcelanato e à garrafa de álcool quebrada em mil pedaços, refletindo a luz do teto.
Cael não desistiu de morrer porque quis, eu sei que por ele... ele teria ido até o fim naquela noite.
Não foi por quê de repente, descobriu uma força sobre-humana.
Ele parou porque, no último segundo de lucidez, no meio do caos e da dor, por que ele se lembrou que ainda existia alguém que dependia dele.
Ele lembrou que o próprio filho precisava dele, que sua familia o amava e talvez tenha sido isso que o fez lutar pela vida... mesmo que estivesse por um fio.
Ainda assim, algumas memórias se recusam a desaparecer, por mais que a gente limpe o sangue do chão.
Depois do trauma, ele se enfiou de cabeça no trabalho, alimentando a ilusão de que, trabalhando o suficiente e acumulando dígitos na conta bancária, daria ao Theo tudo o que o menino precisava para ser feliz.
Mas a grande questão, a verdade que ele se recusa a encarar, é que a nossa família nunca passou por nenhum tipo de dificuldade financeira que justificasse esse desespero por dinheiro. A Sterling Corp sempre foi sólida.
Existe algo mais profundo escondido atrás daquela mesa de carvalho do escritório. Eu sei que há. Ele me confidenciou isso em uma das poucas noites em que nos sentamos para conversar como irmãos, até altas horas da madrugada, quando ele baixou as defesas e se permitiu beber muito além do seu limite habitual.
"O Theo lembra ela, Mia...", ele me disse, com a voz embargada que eu nunca mais ouvi.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A babá do Magnata de Gelo