Hannah Brooks.
O último mês, desde que fui expulsa de casa por me recusar a trancar a faculdade para financiar o carro da minha irmã, foi uma sequência de tombos. Sinto como se o universo me fizesse de palhaça. Estou exausta.
Passei os primeiros cinco dias no quarto de hóspedes da Susan e do Peter. Eles foram incríveis e me acolheram sem prazo para sair, mas o orgulho e o medo de ser um fardo falaram mais alto. Não queria me sentir um peso na vida de ninguém.
Desabafei com a Jane no trabalho e, duas frases depois, decidimos dividir um apartamento. O lugar é simples, com dois quartos e cozinha americana, mas é um teto. Dividimos tudo meio a meio. Para mim é até vantajoso; eu já pagava metade das contas na casa dos meus pais e ainda fazia o trabalho doméstico. A diferença é que agora ninguém j**a na minha cara que devo ser grata por morar aqui.
Mas os problemas não pararam. Uma semana após a mudança, recebi um e-mail da universidade. Meus pais tentaram me passar para trás: ligaram se passando por mim para cancelar minha matrícula e, como sou maior de idade e a tentativa falhou, enviaram uma carta falsa com uma assinatura falsificada solicitando o desligamento. Foi um caos. Tive que correr atrás de coordenação, provar a fraude e reverter o absurdo. Jane foi meu porto seguro em cada etapa.
Para completar, briguei feio com o Ryan umas quatro vezes este mês. O motivo é sempre o mesmo: ele insiste para eu morar com ele, alegando que é o "próximo passo" e que assim ele poderá focar na carreira de músico. Eu sempre apoiei os sonhos dele, mas não vou bancar homem marmanjo enquanto mal consigo me sustentar e pagar a faculdade. O Ryan ficou frio e distante após os meus recusas, mas repito a mim mesma que vamos nos acertar. Só precisamos de tempo.
— Hannah, tá pronta? — Jane chama da porta. — Levi e eu já estamos de saída.
— Saindo em um minuto! — Jogo água no rosto, tentando lavar o cansaço e o peso acumulado de trinta dias de puro inferno.
O dia havia sido brutal. Corrido demais, exigente demais, com mais cobrança do que deveria existir para um salário tão baixo que beira a ofensa. Gente impaciente, pedidos errados, caras tortas por atrasos que não dependiam de mim. O pacote completo da vida adulta mal paga.
Seco o rosto com papel-toalha, jogo a mochila sobre os ombros e saio do banheiro, agradecendo mentalmente aos céus por ter sobrevivido a mais um turno sem perder completamente a sanidade. Jane e Levi já estão no estacionamento da lanchonete, próximos à caminhonete dele, ambos rindo de alguma coisa aleatória, daquele tipo de riso leve que parece um pequeno luxo depois de um dia pesado.
Estou prestes a me aproximar quando alguém para bem na minha frente, como se fosse uma muralha humana, disposto a impedir minha passagem.
Dou um passo para o lado.
O homem à minha frente repete o movimento.
Dou um passo para o outro lado.
Ele copia de novo.
Paro. Respiro fundo. Conto mentalmente até três para não xingar um completo desconhecido no estacionamento mal iluminado de uma lanchonete.
Ergo o rosto para encará-lo, tentando identificar se já o tinha visto antes. Mas não, nenhuma lembrança vem à mente. E, sinceramente, a meia-luz amarelada dos postes não estava ajudando em nada.
— Com licença — começo, reunindo toda a calma que me resta depois de passar o dia inteiro lidando com o público. — Eu preciso passar e você não está colaborando. Pode, por favor, sair da frente?

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