Cael Sterling.
Meu filho retornou saltitando pelo meio da lanchonete, claramente satisfeito com suas próprias ações, e eu, como pai, não poderia estar mais orgulhoso. Já estava se tornando exaustivo sustentar todo aquele teatro de homem apaixonado, cada gesto calculado, cada olhar ensaiado.
Ele estava tomando o tempo dela, monopolizando sua atenção e impedindo que ela olhasse para o que realmente importava: meu filho. E, no fim das contas, eu não cometi crime algum. Apenas disse a Theo que ele podia proteger a Nana dele, que aquele homem malvado claramente a estava deixando triste.
E o meu pequeno herói, como sempre, cumpriu seu papel com uma dedicação quase comovente.
É claro que, logo depois, eu tive que enfrentar o furacão de cabelos negros e olhos verdes que emergiu do fundo da lanchonete como se estivesse pronta para me jogar aos cães. Theo ganhou um sorvete de chocolate que o deixou elétrico pelo resto da tarde.
Eu ganhei uma bela bronca... e alguns xingamentos bem direcionados. Consequências, nada além disso.
Agora são exatamente 20h30.
E cá estou eu outra vez, dentro de um dos meus carros, parado no estacionamento, esperando que ela saia para que eu possa lhe oferecer uma carona - e, de quebra, entregar os papéis para que ela assine e comece a cuidar de Theo já na próxima semana.
A porta dos fundos se abre, e ela surge com a mochila nas costas, caminhando de cabeça baixa enquanto digita algo no celular com uma urgência quase frenética. Espero até que ela se afaste o suficiente e então dou a partida no carro.
Sigo ao lado dela com as janelas abertas - uma tentativa quase irônica de evitar novos acidentes. Pelo menos é o que eu digo a mim mesmo.
Ela continua andando sem levantar o olhar, completamente alheia a qualquer movimento ao redor.
Sinceramente, eu não sei como alguém consegue ser tão distraída. É o retrato perfeito de quem vive no mundo da lua. Em circunstâncias normais, eu jamais consideraria contratar alguém assim. Mas meu filho gosta dela - mais do que isso, ele se animou com a ideia de tê-la como sua nova babá.
E, bem... eu seria um péssimo pai se não desse a ele o que quer.
Acelero um pouco, alinhando o carro ao lado dela quando ela para no semáforo. Buzino uma única vez - e isso basta para arrancá-la do transe e, finalmente, fazê-la notar a minha presença.
- Entra. - digo, me inclinando apenas o suficiente para que ela consiga ver meu rosto através da janela aberta, como quem oferece uma solução simples para um problema óbvio.
Ela para por um segundo, os olhos passando pelo carro com cautela, como se estivesse calculando riscos invisíveis. Consigo praticamente ouvir as engrenagens na cabeça dela girando, pesando cada possibilidade, cada cenário absurdo que sua mente claramente adora criar.
- Eu não... vai que você quer me sequestrar para vender meus órgãos. - ela dispara, usando aquele maldito tom carregado de sarcasmo, como se estivesse mais entediada do que realmente preocupada.
Solto um leve suspiro pelo nariz, inclinando a cabeça de lado enquanto a observo.
- Não devem valer muito, considerando a forma como você se alimenta. - rebato no mesmo tom, quase automático, satisfeito ao vê-la estreitar os olhos na minha direção. - Entra logo, não tenho a noite toda.
- Eu também não. - ela retruca sem hesitar, apontando com o queixo na direção da rua. - Por isso estou indo para o ponto de ônibus. Não posso perder o próximo e-
Ergo a mão, interrompendo-a antes que ela transforme aquilo em um discurso inteiro.
- Quer mesmo arriscar tomar um banho de chuva a aceitar uma carona comigo? - pergunto, deixando uma leve diversão escapar na minha voz. Inclino-me um pouco mais para fora da janela, olhando rapidamente para o céu carregado. - Vamos lá, garota... eu não sou tão repugnante assim.
Ela solta um riso curto, sem humor algum.
- Claro que não. Só é um idiota claramente entediado que decidiu, por puro fetiche, me perseguir nas últimas semanas. - as palavras vêm afiadas, carregadas de um sarcasmo quase admirável.

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