Narradora.
O ronco das hélices do helicóptero tático decresceu em um silêncio grave assim que os patins de pouso tocaram o concreto da base secreta, nos arredores de Bogotá.
A poeira levantada pelas pás ainda nem havia baixado quando as portas laterais foram abertas com violência. O ar da pista cheirava a combustível de aviação, terra úmida e o calor abafado da noite colombiana.
- Equipe de trauma, agora! - a voz de Kiara cortou a escuridão, firme e imperativa, sobressaindo-se ao som dos motores em desaceleração.
Uma maca de alta complexidade rodou velozmente pela pista de acesso, empurrada por três médicos táticos e dois paramédicos vestidos com trajes cirúrgicos sob coletes à prova de balas. O painel da maca já apitava em um ritmo frenético e irregular.
- Homem, 30 e poucos anos, ferimento por projétil de alta velocidade na região hemitorácica direita - o socorrista do helicóptero disparava as informações enquanto corria ao lado da maca, mantendo as mãos sobre o curativo compressivo encharcado de sangue. - A placa balística atenuou o impacto primário, mas o projétil perfurou a borda inferior do colete. Hemotórax maciço, dreno thoracic inserido no trajeto. Pressão arterial sistólica em 70, frequência cardíaca em 140, saturação despencando. Entrou em choque hipovolêmico há dez minutos!
A maca foi conduzida às pressas pelo corredor de luzes fluorescentes brancas do hospital de campanha da base. O som das rodas de borracha estalando contra o piso epóxi ecoava pela estrutura blindada.
Cael estava pálido como mármore, a pele fria e pegajosa tomada por um suor gélido.
A máscara de oxigênio estava embaçada por uma respiração curta e superficial. O peito subia e descia desritmado, revelando o esforço brutal do organismo para se manter vivo enquanto o sangue se acumulava no espaço pleural.
- Sala de trauma dois! Preparem quatro bolsas de O negativo para infusão rápida! - ordenou o médico chefe da unidade de campo, calçando as luvas cirúrgicas enquanto caminhava a passos largos ao lado da maca. - Se não estancarmos esse sangramento intercostal agora, ele não aguenta vinte minutos, quanto mais um voo internacional.
- Façam o que for preciso para estabilizá-lo - Kiara instruiu, o tom seco, mas carregado de uma tensão contida que poucos conheciam nela. - Drenem o tórax, controlem a hemorragia interna e preparem o suporte de vida. Ele precisa estar em condições de transferência para a UTI aérea até a alvorada.
As portas duplas do bloco cirúrgico de emergência se fecharam com um baque abafado, deixando para trás o ruído estridente dos monitores cardíacos que tentavam mapear os sinais vitais vacilantes de Cael.
No corredor silencioso, iluminado por lâmpadas frias, restaram apenas Kiara e a figura fragilizada que acabara de ser retirada da segunda aeronave de apoio.
Adelaide estava sentada em uma cadeira de rodas adaptada para transporte, envolta em uma manta térmica prateada.
Seu corpo magro, marcado pelos anos de cativeiro e privações, parecia quase afundar no tecido fino da roupa hospitalar fornecida no resgate. Seus cabelos, opacos e desgrenhados, emolduravam um rosto pálido onde os ossos da face se destacavam com severidade.
Ela mantinha as mãos trêmulas encolhidas contra o peito, os olhos arregalados percorrendo o corredor limpo, tático e milimetricamente organizado da base.
O choque do resgate ainda dominava seus sentidos - a transição abrupta do pesadelo do cativeiro para a autoridade cirúrgica e militar daquele ambiente parecia irreal.
Kiara parou a poucos passos de distância. Por um segundo, a postura impecável e a couraça de frieza da mulher que comandava operações bilionárias e de alto risco fraquejaram. O olhar de Kiara varreu Adelaide com uma mistura visceral de dor, descrença e um peso que vinha acumulando há mais de vinte anos.
Adelaide ergueu os olhos devagar. O olhar da mulher resgatada encontrou o da irmã.
As duas não se viam desde a juventude, desde antes de entenderem o peso que aquele sobrenome carregava, desdee antes de a vida tomar caminhos tão brutalmente opostos. Adelaide via em Kiara a imagem de uma autoridade quase inatingível: impecável no terno tático, com a postura firme de quem controlava tudo ao seu redor, cercada por homens armados que obedeciam a cada um de seus gestos.
- Kira...? - a voz de Adelaide saiu em um sussurro arranhado, fraco, quase sem ar, como se suas cordas vocais tivessem esquecido como articular palavras sem medo.
Kiara deu dois passos à frente e se ajoelhou devagar diante da cadeira de rodas, ficando na altura dos olhos de Adelaide. Suas mãos, sempre firmes e precisas, tocaram suavemente os ombros cobertos pela manta térmica. A textura fria da pele da irmã fez o peito de Kiara se contrair.
- Sou eu, Addie - respondeu Kiara, a voz baixa, em um tom que ninguém fora daquela família jamais ouvira. - Acabou. O inferno acabou. Você está segura agora.
Lágrimas silenciosas começaram a cavar sulcos na poeira do rosto de Adelaide. Ela não conseguiu formular frases completas; apenas assentiu levemente, o corpo todo tremendo em pequenos espasmos de exaustão e alívio involuntário.
- O homem que... que levou o tiro... - Adelaide conseguiu articular, o olhar direcionado com pavor para a porta do centro cirúrgico onde Cael fora introduzido. - Ele se jogou na minha frente... Ele...
- O nome dele é Cael - Kiara cortou suavemente, mantendo o olhar fixo no de Adelaide para ancorá-la na realidade. - E ele vai sobreviver. A equipe médica dele está lá dentro cuidando disso agora mesmo.
Kiara fez um sinal com a cabeça para uma das enfermeiras táticas que aguardavam a uma distância respeitosa.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A babá do Magnata de Gelo