Hannah Brooks.
Abro os olhos devagar, sentindo um leve incômodo - aquele tipo de dor de cabeça chata e persistente que avisa que o corpo não está nem um pouco disposto a voltar a funcionar tão cedo.
Mesmo assim, me obrigo a me mover.
Aos poucos, minha visão clareia.
Me espreguiço na cama imensa, sentindo o perfume amadeirado e inconfundível de Cael invadir minhas narinas. Tudo neste quarto cheira a ele. Afinal, é o seu santuário.
A televisão continua ligada em um volume baixinho, transmitindo algum desenho animado de cores vibrantes, mas o colchão ao meu lado está vazio.
As crianças devem ter ido lanchar, ou Cael deve tê-los feito sair para me deixar descansar. Cael Sterling e seu magnífico costume de achar que sou feita de cristal.
Estendo o braço preguiçosamente, passando a mão pelo edredom de fios egípcios em busca do celular para conferir as horas. Em vez da tela gelada do aparelho, meus dedos roçam em algo... estranho.
Algo macio. Áspero. Fofo.
Coço os olhos com as costas da mão esquerda, franzindo o cenho enquanto puxo o objeto misterioso para perto do rosto. Pisco uma, duas, três vezes, tentando processar o que raios estou segurando.
É um tufo de cabelo.
Um tufo denso, encaracolado e inconfundivelmente dourado.
Sento na cama em um pulo só, sentindo o mundo girar à minha volta como se eu tivesse acabado de sair de uma montanha-russa.
Fecho os olhos, pisco algumas vezes tentando reordenar as ideias e, quando finalmente chego a uma conclusão, a dor de cabeça é sumariamente atropelada por uma onda súbita de pavor puro.
Passo a mão desesperadamente pela minha própria cabeça, apalpando o couro cabeludo de um lado para o outro em um surto tátil frenético. Meus fios ondulados e escuros continuam todos ali, firmes e presos em um coque frouxo.
O alívio dura exatamente meio segundo. Ao olhar ao redor, percebo que os lençóis macios e o edredom de seda se transformaram na cena de um crime capilar.
Há cachos dourados espalhados pelo travesseiro, tufos castanhos jogados no tapete de pelúcia ao lado da cama e, para coroar a bizarrice, a maquininha de cortar cabelo de Cael está atirada cinicamente sobre o meu criado-mudo, com a lâmina ainda coberta por pequenos fios loiros.
Lembro imediatamente do momento antes de pegar no sono: Theo e Henry estavam deitados na ponta do colchão, sorridentes como dois anjos divinos que vieram me fazer companhia.
Anjos uma ova. Eram dois cavaleiros do caos mirins em formação.
- Não... Eles não fizeram isso... - murmuro, a voz falhando em um sopro de desespero enquanto salto da cama, esquecendo completamente a tontura de momentos atrás.
Sigo o rastro de migalhas - que, neste caso, são tufos de cachos humanos - pelo corredor extenso da mansão. A trilha leva diretamente à porta meio aberta do quarto de Mia. Conforme me aproximo, ouço sussurros histéricos e o som abafado de passos trôpegos.
Empurro a porta de uma vez.
- Mia... - chamo assim que entro no quarto. - O que diabos aconteceu aqui e por que o quarto do Cael parece uma barbearia clandestina? - pergunto, a voz oscilando em um tom tenso, nutrindo um último fio de esperança de estar errada.
O cenário lá dentro é digno de uma tragédia grega em versão infantil.
Mia está de pé, paralisada, com os olhos cravados em algum canto do quarto. A pálpebra do seu olho esquerdo treme em um tique nervoso assustador - a imagem perfeita de alguém prestes a ter um colapso completo.
David está de pé ao lado da cama, congelado como uma estátua de sal, encarando o nada com a tez mais pálida que já vi na vida.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A babá do Magnata de Gelo