Mia Sterling.
- Achei que o Cael não pudesse lidar com fortes emoções - a voz de David ecoa pelo cômodo, carregada por um tom leve seguido de um riso contido e irritantemente charmoso. - Mas, com tanta coisa que já aconteceu só na manhã de hoje, não me admiraria nem um pouco se ele surtasse de vez até o fim do dia.
Estreito os olhos na direção dele enquanto me debruço para terminar de amarrar os cadarços do meu tênis.
- Eu te faço engolir um desses se você ousar abrir a boca mais uma vez, David - digo, sem esconder a ponta de irritação na voz. - Já estou com os nervos à flor da pele com toda essa situação. Não preciso da imagem do meu irmão tendo um treco e parando na UTI tomando conta da minha mente pelo resto do dia.
Respiro fundo, puxando o ar com força antes de finalmente me pôr de pé. Encaro meu reflexo no espelho de corpo inteiro para ajeitar a roupa, juntando os fios de cabelo e prendendo-os em um rabo de cavalo alto e bem firme.
- Eles só deveriam chegar daqui a dois dias - torno a falar, girando para encará-lo. - Mas a mamãe está morrendo de saudade dos netos e completamente ansiosa para conhecer a nova nora... Ela também guardou uma lista inteira de coisas para dizer ao Cael. Pretende dar uma bronca nele por ter sido tão irresponsável e, ao mesmo tempo, quer pedir perdão por não ter conseguido estar aqui por ele quando tudo desandou.
- Eles sabem que não tiveram culpa de nada, certo? - David pergunta, esparramado confortavelmente na minha cama como se aquele colchão já fosse dele por direito. - Quero dizer, tivemos aquele mau tempo desgraçado e a ameaça de tempestade severa que acabou cancelando todos os voos. Não foi culpa deles de fato.
- Tente enfiar essa lógica na cabeça deles - digo, soltando um riso curto. - E para piorar, ainda tem o fato de que o papai está trazendo um "presente surpresa" para os meninos... alguns, na verdade. E você sabe que ele fez questão de incluir o Henry nessas contas todas.
- Sou imensamente grato a ele por isso - David responde, a voz vacilando levemente tomada por um vislumbre genuíno de emoção.
- Se eu estivesse no seu lugar, esperaria antes de agradecer. Já esqueceu qual foi o tal "presente" do ano passado? - pergunto, deixando uma risada baixa e provocadora escapar.
- Por favor, não me lembre disso, amor. Minhas roupas ainda possuem glitter incrustado no tecido, mesmo depois de eu ter lavado cada peça sabe-se lá quantas vezes - ele reclama, rindo e balançando a cabeça. - Sem falar no desastre que foi com a garotada... O Theo e o Henry tiveram que cortar o cabelo quase na máquina por causa daquela...
David sequer consegue terminar a frase. Nesse exato segundo, a porta do meu quarto é escancarada de forma brusca contra a parede, e a dupla dinâmica dos meus pequenos furacões entra com tudo no meu santuário.
Cada um deles carrega na cabeça um dos capacetes de corrida de brinquedo do Theo, completamente tortos e grandes demais para eles.
- Tia Mia, Tia Mia! O Henry e o Theo têm uma surpresa, tia... uma SURPRESA! - Theo dispara com puro entusiasmo, pulando em círculos feito um doido junto com o primo.
- Surpresa, tia... surpresa! O Henry tem uma surpresa! - Henry cantarola em um ritmo frenético, dançando de forma ridiculamente animada, transbordando a energia inesgotável de quem parece ter acabado de devorar um quilo inteiro de açúcar refinado.
Troco um olhar cúmplice com David, que parece ler meus pensamentos sem que eu precise articular uma única palavra. Ele apenas balança a cabeça, divertido. Apoia os cotovelos nos joelhos e se inclina para a frente na borda da cama, exibindo aquele sorriso despretensioso no rosto, crente de que está prestes a assistir a uma apresentação teatral fofa e ensaiada de última hora.
- Certo, meus pequenos furacões... - estreito os olhos para encará-los, cruzando os braços e tentando decifrar o mistério por trás daquele entusiasmo todo. - Que negócio é esse de surpresa? O que vocês aprontaram exatamente no tempo em que a gente estava aqui conversando?
- A Naná dormiu, tia. Ela tava com muito sono - Theo toma a palavra primeiro, esfregando as mãozinhas de forma agitada, um gesto claro de pura ansiedade.
- A gente só queria brincar, tia Mia... A gente achou um brinquedo muito, muito legal... lá na gaveta do tio Cael - Henry acrescenta, dando um passo à frente com um ar meio encabulado, mas sem conseguir esconder o sorriso sapeca e vitorioso que dança em seu rosto.
- É sim, tia! É muito legal... muito legal mesmo! - Theo concorda com os olhos brilhando de pura empolgação, voltando a pular no mesmo lugar feito uma pipoca estourando na panela. Henry o acompanha imediatamente no ritmo, parecendo ter energia suficiente para alimentar uma usina elétrica inteira sozinho.
- O brinquedo faz bzzzzzzzz... - Theo solta um zumbido imitando um motor enquanto continua pulando, fazendo com que o capacete visivelmente folgado dance e chacoalhe sem parar em sua cabeça.
- É, tia! Faz bzzzzz... bzzzzzz! - Henry faz coro, abrindo um sorriso ainda maior, empolgado com a própria sonoplastia. - E o cabelo cai, tia! Quando passa na cabeça, o CABELO CAAAIII!
Pisco uma, duas vezes, sentindo o ar congelar na minha garganta.
Devagar, desvio meus olhos para David.

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