Hannah Brooks.
Respiro fundo, puxando o ar devagar na tentativa quase inútil de conter as lágrimas que insistem em se formar nos meus olhos. Eu detesto me sentir vulnerável. Detesto essa sensação de fragilidade que parece escorrer pelas minhas veias como um veneno lento, silencioso, humilhante. Demonstrar fraqueza nunca foi algo que me agradou, nunca foi algo que eu permiti que os outros vissem com facilidade.
Mas vamos lá. São 01h40 da madrugada. Está um frio do caralho. O tipo de frio que se infiltra pelos ossos e faz o corpo inteiro tremer, mesmo dentro de um hospital iluminado demais e silencioso demais. E aqui estou eu, sentada em uma cama de hospital, em um quarto desprovido de vida, com o cheiro estéril de antisséptico impregnando o ar, esperando por alguém que deveria já estar aqui.
O homem que deveria ser meu noivo.
O homem que, neste exato momento, está se recusando a vir me buscar porque diz estar cansado do seu maldito emprego de meio período.
Quase rio com amargura ao pensar nisso.
Como se eu também não tivesse trabalhado das 13h às 20h, em pé o tempo todo, servindo clientes irritantes, lidando com adultos mais mimados do que as próprias crianças que eles carregam pela mão. Como se meu dia tivesse sido uma caminhada tranquila por um campo de flores e não sete horas seguidas sorrindo por obrigação enquanto minha paciência era lentamente triturada.
Aperto o celular com mais força contra o ouvido, sentindo minha mandíbula travar enquanto tento manter a voz firme.
— Ryan, qual a parte de que eu sofri um acidente e estou no hospital você não entendeu? — digo, cada palavra saindo mais controlada do que eu realmente me sinto. Minha voz ecoa com uma firmeza que claramente não existe dentro de mim naquele momento. — Eu preciso que você venha me buscar.
Do outro lado da linha vem um suspiro arrastado.
— Caramba, amor... eu até iria, eu juro... — a voz dele ecoa preguiçosa, carregada daquele maldito tom sonolento que ele usa sempre que não quer fazer alguma coisa. — Mas eu tô mó cansado, o dia foi puxado demais.
Fecho os olhos por um instante, sentindo o sangue pulsar nas minhas têmporas.
— Por que você simplesmente não pega um táxi ou sei lá...
Abro os olhos devagar, olhando para o relógio digital pendurado na parede branca do hospital. Os números vermelhos brilham como um lembrete cruel da hora.
— São quase duas da manhã, Ryan. — digo, lentamente, tentando não deixar a irritação tomar completamente minha voz. — Duas da manhã. E você está realmente me mandando pegar um táxi a essa hora, quando você claramente pode pegar o carro e vir me buscar?
A indignação pesa nas minhas palavras. Eu consigo sentir isso.
E antes que eu perceba, uma lágrima solitária escorre pelo meu rosto, quente contra o frio da madrugada.
— Para de drama, Hannah. — ele responde, a voz agora carregada de impaciência. — Eu tô cansado, cara. Trabalhei o dia todo e—
— E você acha que eu não? — interrompo, as palavras escapando antes que eu consiga segurá-las.
Minha mão aperta o celular com mais força.
— Eu também trabalhei o dia todo, Ryan. E ainda sofri um acidente quando estava saindo do trabalho. Por sorte não foi nada mais grave, mas poderia ter sido. — minha voz falha por um segundo, mas eu continuo mesmo assim. — Eu estou ligando para o meu noivo, praticamente implorando para que você venha me buscar... e você sequer teve a decência de desligar a porra do jogo.
O silêncio do outro lado dura apenas um segundo.

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