Hannah Brooks.
Se em algum momento alguém me dissesse que, em um fim de semana qualquer, eu estaria no Central Park em uma espécie de piquenique improvisado na presença de Cael, eu riria na cara da pessoa.
Se acrescentassem o detalhe de que ele estaria com a cabeça deitada confortavelmente em meu colo enquanto eu tento fazer algum tipo de trança estranha em seus fios de cabelo, eu realmente diria que essa pessoa precisaria de uma internação psiquiátrica urgente.
Mas o mundo dá voltas capciosas.
Ao invés de qualquer sanatório, cá estamos nós, acomodados sobre uma manta estendida na grama do Central Park, bem à beira do lago. Deixamos de lado os sanduíches por um momento para observar um verdadeiro espetáculo da natureza urbana: dois patos furiosos perseguindo um garoto de uns sete anos.
O menino segura um pacote de bolachas com a vida e, até segundos atrás, estava atiçando as aves na beira da água.
Estamos assistindo? Sim, com certeza.
É uma cena engraçada? Extremamente.
Vamos ajudar? Definitivamente não.
Até porque os pais do garoto estão a poucos metros de distância, fingindo uma demência monumental enquanto olham para o outro lado, dando uma de sonsos.
O menino corre em um desespero tão genuíno que parece que o mundo está desabando sob seus pés gordinhos. Atrás dele, os patos grasnam alto, marchando em uma velocidade impressionante em busca do grande prêmio: o bendito pacote de bolachas recheadas.
- Ele, sem dúvidas, nunca mais vai esquecer esse momento - digo, rindo baixo, os dedos ainda perdidos nos cabelos de Cael enquanto meus olhos acompanham o escândalo.
Não somos os únicos cruéis ali. Algumas outras pessoas que passam pelo local diminuem o passo, parando para assistir ao show ao vivo com sorrisos contidos.
- Eu estou torcendo fervorosamente para os patos - a voz de Cael ecoa, ressoando com aquele tom suave e divertido que ele vem usando desde que chegamos aqui. Ele nem sequer se mexe no meu colo, apenas acompanha a corrida com o olhar. - O garoto que começou a provocação... Isso forma o caráter. Vai ensinar a ele a valiosa lição de não mexer com quem está quieto.
- Pensamos igual, ao menos nesse quesito - respondo, rindo abertamente, sentindo a vibração do peito dele contra as minhas pernas. - Quer dizer, ao menos na parte em que a culpa é toda dele.
Faço uma breve pausa, deixando um sorriso ladino surgir em meus lábios enquanto abaixo o olhar para encarar seu rosto relaxado.
- Mas espera... "Isso forma o caráter"? Pela forma natural com que você fala, parece até que já foi perseguido por patos na infância.
- Patos são fichinha, garota - ele diz, mantendo o tom de voz leve, quase nostálgico, enquanto fecha os olhos por um segundo, aproveitando o carinho desajeitado que faço em sua cabeça. - Agora, ser perseguido por um cavalo enfurecido enquanto sua irmã mais nova tenta te laçar como se você fosse um boi... Isso sim foi de fato uma experiência memorável que moldou quem eu sou.
Meus dedos travam no meio do emaranhado do cabelo dele. Meus olhos se arregalam em um espanto genuíno. Cael abre os olhos, nota a minha expressão e cai na gargalhada, me encarando de baixo para cima com a maior naturalidade do mundo, como se o que acabou de relatar fosse um domingo comum de Sol.
- Espera... O quê?! - pergunto, sem conseguir acreditar no que acabei de ouvir. Continuo encarando os olhos dele, paralisada, enquanto ele continua a rir da minha cara, como se tivesse acabado de contar a piada mais comum do século.
- Sim, ué... É coisa comum de irmãos - ele meio que dá de ombros, abandonando o conforto do meu colo para se sentar ao meu lado. Ele volta os olhos para a imensidão azul do lago, ajeitando a postura. - Meus avós tinham uma fazenda de gado em Saskatchewan. Costumávamos ir para lá nas férias de verão. Era divertido, mesmo que a gente não gostasse de admitir na época. Então, teve uma vez em que vimos os cowboys da região juntando o gado e achamos aquilo a coisa mais fascinante do mundo.
Ele faz uma pausa, os olhos azuis ligeiramente perdidos além da água brilhante, como se estivesse revivendo cada frame daquela lembrança distante.
- Mia deu a ideia de brincarmos daquele jeito e, é claro, Sebastian e eu topamos na hora. E ainda levamos Gabriel de quebra, porque se fosse para dar merda, então estaríamos todos no mesmo barco - ele diz, rindo com o canto dos lábios. - Quando nossos pais se distraíram por alguns minutos, nós soltamos um dos cavalos e o levamos para um campo aberto lá perto... Tivemos a brilhante ideia de deixar Mia e Gabriel montados no cavalo, enquanto Sebastian e eu correríamos a pé na frente. Só nos esquecemos de um pequeno detalhe: perguntar se o cavalo estava de acordo.
A essa altura da história, Cael já está rindo abertamente, os olhos espremidos pela diversão de revisitar o passado. Eu o acompanho no riso, porque, sejamos sinceros, a gente sabe exatamente quando algo vai dar muito errado na vida de alguém puramente pela forma empolgada como a história é contada.
- Eles montaram no cavalo, sem sela, sem apoio nenhum, apenas subiram com a nossa ajuda, claro. Arrumamos uma corda - que eu sinceramente não lembro de onde caralhos tiramos - e dissemos a Mia que ela deveria tentar nos laçar. Céus, aquilo foi um caos - ele diz, a voz falhando em meio às gargalhadas. - Nem precisamos dar sinal de partida. O cavalo simplesmente começou a correr atrás de nós em disparada pelo meio do campo aberto. Sebastian e eu entramos em desespero total porque o bicho era rápido demais. Gabriel estava se acabando de chorar e gritar, agarrado à cintura da Mia, enquanto ela gargalhava feito uma louca em cima do cavalo, sem soltar a maldita corda...
- Vocês são completamente malucos... - comento, balançando a cabeça, totalmente absorta na cena mental.
- Éramos irresponsáveis, isso sim - ele corrige, ainda rindo. - Estávamos eu e Sebastian com dezessete e dezesseis anos, Mia com dez e Gabriel com oito. E nossos pais ainda nos achavam maduros o suficiente para nos deixar cuidar dos menores. Para resumir o desastre: o cavalo enlouqueceu de vez, Sebastian e eu quase fomos atropelados e, na tentativa de fugir, acabamos mergulhando direto dentro da baía dos porcos da fazenda. O maldito fedor daquele chiqueiro não desapareceu da nossa pele por dias... Mia e Gabriel caíram do cavalo em algum ponto da corrida e ambos se machucaram feio. Gabriel acabou com um braço quebrado e Mia com a perna engessada. Ficamos de castigo pelo resto do verão por conta disso.

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