Zoé Santos olhou para ele e perguntou:
— E o médico?
Henrique Farias arqueou levemente os lábios, apoiando o braço forte no balcão de remédios. Havia em seu gesto uma preguiça elegante, e sua voz grave e aveludada era agradável de ouvir:
— Aqui, sou eu quem manda.
Zoé Santos o encarou por dois segundos. Tirou do bolso um pequeno quadrado de papel, dobrado com precisão, e empurrou sobre o balcão, mantendo uma postura polida, porém distante:
— Obrigada.
A mão de Henrique Farias ficou suspensa no ar por um instante.
Ele baixou os olhos com desdém.
Através do vidro transparente, ele notou os dedos delicados e alvos da jovem, as articulações graciosas, com pequenas calosidades nas pontas dos dedos.
Logo acima do osso do pulso, uma pinta vermelha parecia sangue.
O contraste com a pulseira metálica negra era fascinante, quase hipnótico.
Aquela pinta tinha mesmo escolhido um bom lugar para nascer.
Henrique Farias virou a mão, pegou o papel, fingiu examinar por um momento.
Então se inclinou, retirando debaixo do balcão uma pequena caixa de madeira maciça, que colocou sobre a mesa.
Zoé Santos abriu a caixa. Dentro, havia várias caixinhas transparentes, do tamanho de embalagens de chiclete, contendo pequenas pílulas acinzentadas.
Ela pegou uma, sacudiu levemente — a cor era idêntica ao remédio que tomava antes.
Com destreza, abriu a embalagem, baixou a máscara um pouco e levou à ponta do nariz.
Henrique Farias reparou no corte avermelhado, já cicatrizando, que atravessava o dorso do nariz dela.
Virou-se de lado, abriu a gaveta ao lado, onde havia vários potes e frascos de porcelana branca, com o nome dos remédios escritos em esmalte preto nas tampas.
Zoé Santos, ao confirmar que o cheiro da nova remessa estava correto, ajustou a máscara sobre o nariz, fechou a caixa de madeira e a segurou na mão.
Nesse momento, Henrique Farias lhe estendeu um pequeno pote de porcelana.
Na tampa, lia-se: "Feridas".
— Não deixe cicatriz no rosto — disse ele, a voz baixa e clara.
Zoé Santos ficou calada por dois segundos, pegou o pote e, como antes, abriu a tampa para cheirar.
Seu nariz bonito e empinado se moveu sutilmente, as narinas se agitaram como as de um pequeno animal curioso.
Henrique Farias, com o olhar baixo, deixou escapar um leve sorriso no fundo dos olhos.
Após alguns segundos, ela pareceu convencida de que era um bom produto e guardou:
— Obrigada.
Seus olhares se cruzaram.
Os traços marcantes do rosto dele estavam perigosamente próximos, nítidos demais.
Esse rosto... Zoé Santos, no fundo dos olhos, pareceu se retrair levemente.
O clima ficou, por um instante, diferente.
— Já terminou? — Asafe, ao terminar uma ligação, abriu a cortina. Ao ver quem estava à frente de Zoé Santos, seus olhos se arregalaram de espanto.
Caramba!
Não era possível...
Henrique Farias?!
— Terminei.
Zoé Santos fechou a mão sobre o cartão, guardou-o no bolso e se virou para ir até Asafe.
Asafe, recobrando a compostura, pegou naturalmente a caixa da mão dela, abriu a cortina e a deixou passar primeiro.
Antes de sair, olhou várias vezes, intrigado, para o homem atrás do balcão.
Henrique Farias ficou com uma das mãos no bolso da calça, os olhos negros entrecerrados, perigosos e preguiçosos.
Observava fixamente as duas silhuetas que se afastavam pela porta.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Zoé Santos:A Fênix de Cidade R
Tenham mais respeito com os leitores...
Quando o autor vai atualizar os cap?em outro app já tá no 319...