Voltar para junto de Daniel, que a esperava intranquilo depois de tudo isso, foi muito difícil. Ela lavou a cara várias vezes, tentando dissimular o vermelho dos seus olhos; não queria que ele a visse assim e lhe perguntasse o que se passava. Se lhe dissesse que tinha discutido com Harry, ia ser mais um problema. Procurou algumas garrafas na cozinha e regressou à sala de música.
Ele viu-a entrar com um sorriso e o coração acalmou-se-lhe. Ela sentou-se junto a Daniel, muito colada, como precisando de o sentir. Ele passou-lhe um braço por trás da cintura e ela apoiou a cabeça no seu ombro. Era à sua maneira de lhe dizer «abraça-me», e ele fê-lo. Ele puxou-a ainda mais para si, fazendo-lhe cócegas nas bochechas com a caxemira da sua camisola.
«Tudo bem?»
«Sim... Só um pouco cansada... Por que é que cheira sempre tão bem?»
«Porque tomo banho todos os dias.»
Deanna riu. Ele falava a sério, estabelecendo o óbvio como um facto indiscutível. Costumava ter esse tipo de réplicas, sempre fundamentando as suas respostas na lógica, convertendo o simples e quotidiano em algo engraçado. Ouvi-la aliviou ainda mais a sua preocupação.
«Os teus amigos tocam muito bem.»
«Não se cansarão até de madrugada, asseguro-te...»
«Não importa, há muito tempo que não há tanto ruído nesta casa.»
«Estão todos loucos, espero que não acordem as crianças.»
«Ontem falei com um arquiteto para modificar a casa de hóspedes e convertê-la num estúdio de música como deve ser. Assim terás um lugar maior e cómodo para ti, e poderás recebê-los melhor quando vierem de novo.»
Por alguma razão, o peito contraiu-se-lhe um pouco; era como se lhe acariciasse a ferida que Harry tinha aberto há pouco. Uma felicidade que dói. Ela escondeu a cara um pouco mais acima, não queria que ele a visse, e sussurrou-lhe um pequeno «obrigada» ao ouvido. Ele respondeu-lhe com um ligeiro aperto na cintura.
Ele podia fazer isso e mais, podia fazer tudo por ela; nunca esperaria que ela lhe pedisse nada, sempre se adiantaria a resolver o que fosse pela sua mulher. Ele solucionava, repassava as coisas, procurava a melhor maneira e executava. E por Deanna, daria a volta ao mundo se fosse necessário.
«Falaram ontem à noite, na galeria do jardim. Harry ficou destroçado.»
«Ele disse-lhe algo?»
«Não... pelo menos não sobre o que realmente se passa com ele. Mas, Daniel, a discussão foi forte. Deanna não te comentou nada?»
«Não, ontem à noite ela estava estranha. Disse que era cansaço, mas quando fomos para a cama só queria que a abraçasse para poder dormir.»
«Não vou dizer-te sobre o que falaram, irmão, mas tenho de te perguntar algo...»
«O que, Susan?»
«Estás realmente certo de querer levar isto até o fim? Refiro-me a se estás convencido de que a queres para passar a tua vida com ela. Sabes, como eu, que se vão ter de enfrentar a muitas situações difíceis. As pessoas vão falar pelas vossas costas. Ela não encaixa em nenhuma parte.»
«Ela encaixa comigo, e é a única coisa que me importa. Encaixa com os meus filhos. O que mais posso pretender? As conversas não me preocupam, no final acabarão por desaparecer.»
«Sim, mas antes de o fazer deixarão marcas. Ethan comentou-me que alguns dos seus colegas se riram dele porque a sua nova "mãe" é uma jovenzinha. Ainda bem que o teu filho se parece contigo, caso contrário teria ficado mal.»
«Ethan disse-me algo. Mas, como dizes, ele geriu bem. Não o afetam os comentários porque ele sabe em primeira mão como é Deanna na realidade.»
«Daniel... não tens dúvidas?»
«Dúvidas de quê?»

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