Eles se encararam no escuro.
Apesar da pouca luz no quarto, ainda conseguiam ver os traços um do outro perfeitamente.-
Aquele homem era, sem a menor dúvida, espetacular.
Com uma estrutura óssea perfeita e traços impecáveis, sua aura aristocrática era como uma lua brilhante no meio do outono.
Exalava um esplendor avassalador.
Isabel encarou aquele rosto hipnotizante e xingou a si mesma por ser tão fraca.
Como é que se deixou cegar por uma casca bonita, afundando a própria vida por tantos anos?
No passado, Isabel já estaria acostumada com aquele tipo de atitude arrogante.
Mas, naquela noite, ela não estava disposta a aturar nada.
Os lábios vermelhos se curvaram ligeiramente, e a voz dela soou com um tom de riso debochado.
— Antes, eu até que gostava. Mas agora perdi o interesse. Tenho medo de pegar uma doença.
O olhar denso de Sérgio pousou no rosto deslumbrante dela.
Ele ficou paralisado por um momento.
Em seguida, o canto de sua boca se ergueu de leve, em um sorriso que não parecia um sorriso.
— Dou uma chance e você se faz de difícil. — Enquanto falava, um toque de sarcasmo tomou conta do seu semblante. — Fala logo. O que você quer dessa vez?
Isabel pensou com seus botões: pelo visto, o humor dele estava ótimo.
Se não, depois de ser mordido, ele não estaria oferecendo favores em vez de dar um ataque de fúria.
No passado, quando a família Ribeiro precisava de ajuda, ela só ousava pedir depois que ele estava plenamente satisfeito na cama.
E, mesmo no ápice do prazer, ele apenas assentia de forma fria e indiferente.
Ao ouvir o tom zombeteiro dele agora, o sangue de Isabel ferveu de raiva.
Sem pensar duas vezes, usou as mãos e os pés para chutá-lo para fora de cima dela com violência.
Sérgio claramente não esperava por aquilo.
Ele caiu de bruços no chão.
Levantou a cabeça, com uma expressão sombria, para encarar a mulher que já estava puxando as cobertas.
— Criou coragem, Isabel Ribeiro.
Ela sorriu com cinismo.
— Não se compara a você, Diretor Serra. Um verdadeiro equilibrista, que dá conta da esposa e da amante sem suar a camisa.
Sérgio ficou encarando-a por dois segundos.
Então, ele se levantou do chão de um salto.
Seus olhos estavam gelados.
Se não fosse pela educação impecável enraizada em seus ossos, que o impedia de bater em mulheres...
Isabel teve certeza de que ele teria lhe dado um tapa na cara ali mesmo.
— Deixe de indiretas. Não tem nada a ver com o que você está pensando.
O rosto de Isabel não demonstrou a menor reação.
Mas suas mãos, escondidas debaixo das cobertas, agarravam os lençóis com força.
O filho já o chamava de pai e "não tinha nada a ver"?
Típico discurso de canalha.
Ela sorriu, calmamente.
— E o que é que eu estou pensando? O Diretor Serra poderia ser um pouco mais claro.
— Que tédio!
Sérgio não tinha paciência para discutir com ela.
O chute cortara todo o seu clima.
Ele virou as costas e marchou em direção ao quarto de hóspedes.
Para ele, dar explicações era algo entediante, desnecessário.
Essa sempre foi a postura típica de Sérgio Serra.
Isabel ficou olhando fixamente para a cortina do quarto.
Ontem à noite, ela o mordeu e o chutou.
Ele não tinha brigado, e agora ela estava passando dos limites.
— Agradeço pela honra, Diretor Serra.
Bzz...
A vibração de um celular quebrou a tensão que pairava entre os dois.
Sérgio franziu as sobrancelhas, disfarçando o incômodo.
Ele pegou o aparelho no instante em que viu o nome na tela.
— O que houve?
Sua voz transbordava preocupação.
Isabel não conseguiu ouvir o que disseram do outro lado.
Mas teve absoluta certeza de que era a voz de uma mulher.
— Estou indo para aí agora mesmo.
Ele largou os talheres na mesa.
Levantou-se e foi embora, sem sequer dirigir um último olhar para a esposa.
Isabel sorriu de canto.
Lembrou-se de uma frase que tinha lido em algum lugar:
"Todo mundo tem um cantinho macio no coração. Se não foi dado a você, é porque foi dado a outra pessoa."
Seus dedos finos mal haviam tocado na tela para baixar o arquivo.
O celular tocou.
Era a cuidadora da clínica de repouso, Dona Lopes.
Assim que Isabel atendeu, a voz desesperada da mulher disparou:
— Isa, a sua mãe ficou em pé na neve ontem até de madrugada! Agora ela está com uma febre altíssima e não acorda de jeito nenhum!

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