Era o auge do inverno rigoroso, com a neve cobrindo tudo de branco.
No caminho, Vânia Viana pediu a Dona Marina que comprasse algumas roupinhas de bebê e brinquedos para levar ao Cemitério Santo Antônio da Paz.
Diante do túmulo de Nádia, Dona Marina arrumou os presentes na neve de forma solene. Vânia Viana, por sua vez, ajoelhou-se diretamente no chão congelante e usou as próprias mãos quentes para limpar a camada de gelo da lápide de sua filha, pedaço por pedaço.
— Nádia, a mamãe veio te ver de novo...
Vânia abriu os braços e abraçou a lápide de pedra. — Você está dormindo aqui sozinha... deve estar sentindo muito frio, não é? A mamãe vai te abraçar... e logo o frio vai passar.
Dona Marina enxugava as lágrimas em silêncio, com o coração em pedaços.
— Nádia, a mamãe sente tanto a sua falta.
Lágrimas escaldantes transbordavam dos olhos de Vânia Viana, derretendo a neve branca ao redor. — Se você estiver me ouvindo... não se esqueça de vir visitar a mamãe nos meus sonhos.
Quando Dona Marina a ajudou a se levantar, os joelhos de Vânia tremiam tanto que ela mal conseguia parar em pé.
— Senhora, o que houve com as suas pernas? Ficaram dormentes por causa de ajoelhar no gelo?
Vânia balançou a cabeça levemente, com o rosto apático. — São sequelas da prisão, por passar os invernos esfregando o chão de joelhos. Não é nada. Quando o tempo esquentar, passa.
— Que pecado! A senhora sempre foi tratada como princesa, como pôde passar por uma tortura dessas?!
Dona Marina estava triste e indignada. — Como o jovem mestre teve coragem de assistir você ir para aquele lugar e sofrer daquele jeito... Ele não tem coração!
— Eu nunca fui uma princesa. Sou como uma erva-daninha.
Após três anos sendo lapidada pela cadeia, o olhar de Vânia Viana agora transbordava resiliência. Era como se ela tivesse renascido. — Não importa quão terrível seja o ambiente, eu sobrevivo. Posso me agarrar para subir, mas também sei rastejar e crescer junto ao chão.
De repente, o olhar dela travou.
Algumas fileiras de túmulos à frente, um homem alto, de postura imponente e aura opressora, estava de costas, segurando um guarda-chuva preto sozinho no meio da ventania e da neve.
O casaco escuro esvoaçava freneticamente, mas o corpo dele permanecia inabalável, firme como uma montanha.
Vânia Viana encarou a figura sem piscar, sentindo que o conhecia de algum lugar.
Mas não conseguia se lembrar exatamente de onde.
— Senhora, para onde está olhando? — Dona Marina perguntou com curiosidade.
Vânia voltou a si e desviou o olhar suavemente. — Não é nada. Vamos embora.
— Diretor Freitas.


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