— A propósito, Sr. Dourado.
Vânia Viana abriu um sorriso para o homem, com o olhar suave.
— Obrigada pela última vez.
A expressão de Sandro Dourado travou por um instante.
— Me agradecer pelo quê?
— Pela última vez no cemitério. Obrigada por segurar o guarda-chuva sobre a lápide da minha filha.
Ao dizer isso, os olhos de Vânia Viana marejaram, e sua voz tremeu levemente.
— Muito obrigada mesmo.
Em seus curtos vinte e seis anos de vida, ela havia sofrido tantas provações que se tornara cem vezes mais resiliente do que uma mulher comum.
Mas, bastava ser algo relacionado a Nádia, para que a parte mais frágil do seu coração fosse facilmente atingida.
A poucos passos de distância, João Freitas ouviu claramente as palavras da mulher.
Ele a encarava sem piscar. Seu rosto frio e marcante parecia coberto por uma névoa gélida, ocultando qualquer emoção.
Os olhos escuros de Sandro Dourado se arregalaram. Sua mente virou um caos.
Depois de um momento, ele respondeu, quase no automático:
— Não foi nada, apenas fiz o que devia.
Um leve calor aqueceu o peito de Vânia Viana, revelando covinhas rasas em suas bochechas.
— Preciso voltar. Até logo, Sr. Dourado.
— Vá com calma, tome cuidado.
— Obrigada, eu tomarei.
Sandro Dourado observou Vânia Viana se afastar a passos lentos, até desaparecer no fim do corredor.
Ele apertou os lábios. As palavras de Sérgio Dourado ecoavam sem parar em sua cabeça:
"Ela não é cega. Ela está fingindo."
Mas por quê?
Foi então que o som de passos se aproximando pelas costas interrompeu os pensamentos de Sandro Dourado.
Ele virou-se apressado, deparando-se com os olhos de João Freitas, profundos e sombrios como um abismo.
— Já que ela é cega, Sandro, por que você não dá mais uma de bom samaritano e a leva de volta? — O tom do homem carregava deboche.
Sandro Dourado se assustou.
— João... há quanto tempo você está aí?

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