A frase fez José Domingos fechar a cara, como se tivesse engolido algo intragável. Sua expressão ficou péssima:
— Roubar o quê? Vânia, pare com essas fantasias.
— Se você não mandar o departamento oficial esclarecer a situação, eu mesma farei isso.
José Domingos soltou um suspiro de impotência.
— Vou mandar corrigirem daqui a pouco.
— E os trinta milhões. Transfira para mim o mais rápido possível.
O homem a encarou, confuso.
— Vânia, ultimamente você só pede dinheiro e casas. O que está acontecendo com você? Aconteceu alguma coisa?
— Preciso de um motivo para pegar de volta o que é meu?
Vânia Viana olhou para o rosto infiel e mesquinho de José Domingos. Lembrou-se dos três anos mortos que passou na prisão, e uma onda de tristeza tomou conta de seu peito.
— Se você faz questão de um motivo, considere que eu cresci. Amadureci. Não sou mais aquela garota ingênua que arrancaria o próprio coração para entregar a alguém só porque ouviu algumas palavras doces. Ninguém pode viver só de sacrifícios. Especialmente alguém como eu, que já esteve no fundo do poço. Preciso pensar mais em mim mesma.
José Domingos franziu a testa. Sentiu um aperto agudo no coração, uma mistura de acidez e dor leve.
Ele sentia que os sentimentos de Vânia Viana por ele haviam mudado, tornando-se frios e calculistas. Talvez ela não o amasse mais com a mesma intensidade.
Mas como isso seria possível?
Desde os dezesseis anos, ela corria atrás dele, chamando-o de "meu José" o tempo todo. Ele era o primeiro e único homem da vida dela. Ela o amava tanto que até foi presa em seu lugar. Como esse amor poderia simplesmente desaparecer?
Além disso, agora ela estava cega e com o futuro destruído. Ela deveria se agarrar a ele como a sua única tábua de salvação. Senão, quem garantiria a vida dela?
Pensando nisso, o homem se tranquilizou.
Com certeza ela estava apenas com ciúmes da atenção que ele vinha dando a Camila Lacerda ultimamente, ainda mais após a promoção. Ele só precisava mimá-la um pouco quando voltassem para casa.
José Domingos sorriu para si mesmo, deu um passo à frente, abriu os braços e envolveu a cintura fina de Vânia Viana:
— Pronto, pronto. Não fique brava com o seu marido. Eu atendo aos seus pedidos. Transfiro o dinheiro para o seu cartão amanhã e coloco três milhões a mais. Vá fazer umas compras, divirta-se um pouco.

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