No segundo seguinte, do outro lado da linha ecoou o tom impessoal:
[O número que você chamou está desligado...]
— Procure-a.
A mão de João contraída no telefone, os dedos grossos mostrando suas grandes articulações, a sua fala amargurada entre os dentes: — Não me importa se preciso revirar a cidade inteira, tem que achar a Vânia Viana e trazê-la a mim.
...
Vânia sabia que sair do hotel assim, ignorando os comandos dele, só atrairia a ira de João, que moveria os céus para procurá-la e encontrar onde estivesse.
Então, escondeu a bengala, furtou discretamente o casaco de outra convidada e saiu o mais encoberta possível, escapando pelo fundo do hotel, evitando as câmeras.
Chamou um táxi e foi em direção ao prédio velho em que Helena morava.
Lá embaixo, as ruas mal iluminadas cobertas com flocos de neve, estava Estrela, num espesso casaco de frio, mancando o pé à sua espera, com o gesso ainda preso no seu punho esquerdo.
Quando viu Vânia caminhar de forma ríspida contra a brisa congelante, um sorriso desabrochou em seus lábios ressecados e ela sacudiu as mãos:
— Vânia! Por aqui!
Vânia exclamava arfante, com a fumaça de sua boca aquecendo o rosto congelado pelo tempo; ela parecia agitada:
— Está agindo que nem um bebê com os ossos se desfazendo, o que deu na cabeça de sair?
Estrela não pareceu ligar: — Quando era repórter, costumava machucar e ralar o corpo enquanto apurava matérias. Esses pequenos arranhões são comuns pra mim.
Então percebeu que não tinha ninguém com Vânia, por isso interrogou: — Mas onde está o diretor Dourado? Não disse que vinha com ele?
Vânia ficou entre rir e chorar: — O que seria da vida do Sr. Dourado se eu implorasse que me acompanhasse todo tempo? Acha que eu o chamo pra todo lado?
— Mas se ele não vai ajudar, o que vamos fazer com aquele psicopata imundo de velho?

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