No dia seguinte, José Domingos saiu bem cedo de novo.
Vânia Viana tomou o café da manhã e chamou Dona Marina ao seu quarto.
— Senhora, do que precisa? — perguntou a governanta.
— Dona Marina, posso confiar em você?
Vânia Viana abaixou o olhar, tomando seu chá verde com lentidão.
— Claro! De toda a família Domingos, a senhora pode desconfiar de qualquer um, mas, por favor, acredite em mim!
Dona Marina fez sua promessa, com os olhos vermelhos.
— Anos atrás, se a senhora não tivesse juntado dinheiro para mim e não tivesse dado um jeito de encontrar um rim compatível para o meu filho, eu já teria enterrado ele faz tempo. Basta uma palavra sua, e eu atravesso o fogo sem nem piscar!
— Não precisa de tanto. — Vânia Viana inclinou-se para colocar a xícara na mesa e sorriu de forma sutil. — Só quero que você compre algumas câmeras escondidas bem pequenas e as instale aqui no meu quarto.
A garganta de Dona Marina apertou.
— Senhora... na verdade, você já percebeu, não é?
Os olhos de Vânia Viana não demonstraram nenhuma emoção.
— Percebi o quê?
Dona Marina ficou dividida. Não sabia se contava à senhora que o jovem mestre e a Srta. Lacerda estavam tendo um caso dentro da própria casa.
Não era medo de ser demitida pelo mestre. Se o pior acontecesse, ela simplesmente iria embora! Já estava farta de servir a essa mãe e filho problemáticos de qualquer forma!
Seu medo era que a senhora descobrisse e ficasse com o coração partido.
A senhora havia perdido a visão, então podia fingir que nada daquilo existia. Se descobrisse esse segredo sujo, com a personalidade que tinha, como essa peça de casamento se sustentaria?
E se deixasse a proteção da família Domingos, como a senhora sobreviveria na implacável e interesseira Alvorada Central?
— Apenas faça. Compre várias. Garanta que cada canto do quarto seja monitorado.
Vânia Viana não explicou o motivo. Seu tom era leve, desprovido de qualquer emoção.
— Sim, senhora. — Dona Marina não se atreveu a fazer mais perguntas.
— Ah, a propósito. Leve isso a uma loja de artigos de luxo de segunda mão e venda.
Vânia Viana abriu a palma da mão, marcada por calos finos. No centro, repousava o colar de rubis que José Domingos havia lhe dado na noite anterior.
— Hã? Tão lindo... Por que a senhora não quer ficar para usar?
Os cantos dos lábios de Vânia Viana se ergueram suavemente.
— Eu estou cega agora. Por mais deslumbrante que seja a joia, eu mesma não posso ver, então não preciso dela.
— Sim, senhora. Eu irei daqui a pouco.
— Ah, leve isso também.
Com um baque metálico, um anel de diamante de três quilates foi jogado casualmente por Vânia Viana na mesa de centro.


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