O pior de tudo era a memória do último encontro.
Ela não havia admitido para Camila que era a verdadeira Luana.
Pedir para ver a criança agora, de forma tão abrupta, faria Camila pensar que ela havia perdido o juízo.
As palavras morreram em sua garganta.
Incapaz de emitir um som, Luana desligou.
Ouvindo o sinal de ocupado, Camila praguejou do outro lado:
— Maluca.
E desligou também.
Luana acendeu um cigarro.
Tragou lentamente, deixando a fumaça preencher o vazio.
O tabaco ajudava a sedimentar o caos em sua mente.
O sangue inquieto em suas veias começou a se acalmar.
Benito entrou na sala e anunciou:
— Srta. Luana, o Sr. Sebastião ordenou que arrume suas coisas.
— O senhor vai levá-la para uma viagem de negócios à Irlanda.
Luana sentiu um arrepio ao ouvir a palavra 'Irlanda'.
Era o lugar onde Sebastião, no passado, abandonara tudo para perseguir Vanessa.
Sua recusa foi imediata e cortante:
— Não vou.
Benito não esperava uma rejeição tão direta.
Ele ficou constrangido, saiu, mas retornou pouco depois com uma expressão de impotência.
— Srta. Luana, o Sr. Sebastião disse que é estritamente profissional.
— A empresa que vamos contatar está ligada ao projeto de fusão que você gerencia.
— Sua presença é obrigatória.
Percebendo que seu tom fora um pouco duro, Benito apressou-se em explicar:
— São palavras do Sr. Sebastião.
Ele jamais teria a ousadia de dar ordens a Luana.
Se ela não ouvia nem o próprio Sebastião, por que ouviria um funcionário?
Vendo que Luana apenas franziu a testa em silêncio, Benito insistiu:
— O Sr. Sebastião já foi para o aeroporto.
— Aqui está sua passagem.
Benito deixou o bilhete sobre a mesa e retirou-se rapidamente.
Luana encarou a passagem.
A palavra 'Irlanda' perfurava seu peito como uma lâmina.
Ela foi transportada para aquela noite chuvosa de cinco anos atrás.
Camila obrigara Sebastião a voltar da Irlanda sob uma chuva torrencial.
Uma comissária de bordo passava por ele repetidamente, lançando olhares de adoração.
Com voz melosa, ela perguntou se ele precisava de um cobertor.
Sebastião a ignorou com frieza, e a moça se afastou, desapontada.
— Não cansa de ficar em pé?
Ele disse, sem erguer a cabeça.
Luana olhou ao redor.
Todos os passageiros já estavam acomodados.
A cabine estava silenciosa, e ela, parada no corredor, era uma intrusa óbvia.
Sebastião falava com ela.
Luana guardou a bagagem e sentou-se na poltrona vazia ao lado dele.
A viagem inteira transcorreu em silêncio absoluto.
Luana acabou adormecendo.
Quando o avião pousou na Irlanda, ela nem percebeu.
Foi acordada pela comissária.
Seu olhar buscou instintivamente o lado.
A poltrona de Sebastião estava vazia.
Ele já havia desembarcado.
Luana levantou-se, pegou sua mala no compartimento superior e seguiu o fluxo de passageiros para fora.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Sr. Sebastião, Tarde Demais
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