Por saber o quão orgulhosa e teimosa Hera era — dona de um temperamento irredutível —, Norberto enviou capangas para acompanhá-la em segredo, visando apenas a segurança dela.
Quando Eduardo Barreto veio relatar o paradeiro dela, informou que ela estava cumprindo o expediente de ida e vinda sem alterações e que o seu estado emocional no trabalho parecia normal; inclusive, estava mais dedicada do que antes.
Norberto franziu os lábios finos e bateu as pontas dos dedos suavemente na mesa, duas vezes.
— Diretor Cardoso, se o senhor está tão preocupado com a Diretora Lopes, que tal...
— Não precisa. — Norberto disse em tom grave: — Isto é apenas uma fase. Ela irá se recuperar aos poucos.
Eduardo concordou com um aceno:
— A Diretora Lopes aparenta ser frágil, mas, na verdade, é muito forte.
Norberto permaneceu calado, apenas vincando a testa com um pouco mais de força.
Era apenas Hera protestando, agindo como uma criança contrariada.
Na tarde do quarto dia, Eduardo de repente bateu à porta de forma apressada. Entrando, disse a Norberto:
— Diretora Lopes colidiu com a traseira de outro veículo na porta da empresa, na hora de ir embora. Ela não se machucou, mas sofreu um pequeno susto.
Norberto levantou-se da cadeira no escritório e já estava a caminho da porta, quando parou no meio do caminho:
— Tem certeza de que ela está bem?
— Sim, senhor. A assistente dela, Rafaela, está cuidando dos detalhes do acidente. A Diretora Lopes já retornou ao seu escritório para descansar. — Relatou Eduardo.
Norberto pareceu sentir uma dor de cabeça latejante. Ele sentou-se novamente na imponente cadeira preta de couro e deu as ordens a Eduardo:
— Mande-a vir até o meu escritório. Diga que é sobre assuntos de trabalho.
Eduardo assentiu, sem pestanejar.
Hera chegou vestindo um elegante conjunto de tweed em um tom de azul vívido. Seu cabelo estava preso de forma desgrenhada e, com uma maquiagem bastante leve, sua aparência emitia grande exaustão e fragilidade. Com os olhos vermelhos, Norberto suspeitou que fosse reflexo do choque que ela sentira devido ao acidente.
— Não fique em pé, sente-se. — Disse Norberto ao encará-la.
— Não, obrigada. O que o Diretor Cardoso deseja falar comigo? — Hera manteve-se firme, embora seu corpo estivesse notavelmente mais magro que de costume.
Norberto observou a sua expressão injuriada e a magreza; até mesmo a forma como ela se referia a ele passara a soar distante.
— Você costumava me chamar de Norberto. — Ele se recostou na cadeira, em um tom desprovido de emoção.
Os lábios de Hera se moveram ligeiramente, mas no fim ela não falou nada.
— Eu não a chamei aqui só para falarmos de trabalho. — Norberto recostou-se na lateral da mesa, com as mãos nos bolsos: — Você passa três dias sem querer me ver, não atende as minhas ligações, não responde às mensagens e nem sequer aparece na sede do Grupo.
As lágrimas de Hera não paravam de rolar, mas ela permanecia muda.
Norberto a observou. Ela abaixava a cabeça, os cílios longos pesados pelas lágrimas, despertando certa pena em quem quer que fosse.
— Quando você quis me arranjar para o Eliseu, você ao menos perguntou o que eu achava sobre isso? Você por acaso se importou com o que se passa na minha cabeça? O que você fez com a nossa amizade? Como poderei ser amiga do Eliseu depois do que aconteceu? Talvez, a partir de agora, não possamos ser nem isso. — Hera suspirou fundo e recuou dois passos: — Nesses três dias, eu me esforcei o máximo possível para apagar aquilo da minha cabeça. Fui ao trabalho, encerrei o expediente no horário normal, conduzi reuniões e cuidei dos problemas da empresa; porém... eu quase destruí o carro de outra pessoa. Por isso, eu não estou me sentindo bem.
Diante da autodepreciação e tristeza dela, as sobrancelhas de Norberto se uniram mais uma vez.
— Eliseu é um bom homem e, o mais importante, gosta muito de você. Antes que a minha avó force um casamento entre você e um estranho, seria mil vezes melhor estar com o Eliseu. Ele pelo menos a amaria de verdade. — Depois de refletir em silêncio por um breve instante, Norberto externou os seus pensamentos.
— Mas eu não preciso do amor dele e não preciso que ele me trate bem! Eu sou forte o suficiente por conta própria. Eu posso muito bem viver e encontrar a felicidade sozinha. Por que... Por que, desde a partida do Alarico, todos vocês estão tentando me afastar e me jogar para longe? Até mesmo você... quer se livrar de mim!
Num rompante incontrolável, Hera desabou num colapso emocional. E, em seguida, agachou-se, afundou o rosto entre as mãos e chorou copiosamente:
— Eu não quero! Eu não quero ir embora...
Vendo-a fora de si, chorando como uma criança, Norberto teve a intenção de lhe dizer algumas palavras, mas engoliu todas elas. Talvez ele de fato não devesse coagi-la com tamanha pressão.
— Naquela noite... eu saí correndo de lá e achei que, em algum momento, você viria me procurar. Mas, quem apareceu no seu lugar foi o Eliseu. Norberto, você não se importa mais comigo? Você nem sequer teve a decência de correr atrás de mim para saber se eu estava bem.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Sonhos Distantes na Mesma Cama: O Pedido Proibido
Esse livro é ótimo.......