Tereza segurava o celular sem dizer nada. Agora ela nutria uma profunda aversão por Hera. Por conta disso, não queria saber de absolutamente nada relacionado a ela.
Contudo, a história sobre ela ter jogado água no rapaz do encontro não deixava de ter o seu lado curioso.
Uma filha adotiva, vivendo de favor na casa dos outros, na teoria deveria ser a pessoa que mais soubesse ler os ânimos alheios. Como ela se atreveria a jogar água em alguém? Com certeza, havia alguém poderoso a acobertando.
Tereza já conseguia perfeitamente visualizar aquela cena.
— Vovó, esses são os problemas dela. Eu não tenho muito interesse em saber. — Tereza deixou sua posição bem clara.
Tendo testado a reação dela, a senhora riu e continuou:
— Eu sei que você tem uma grande antipatia pela Hera. Essa menina tem pensamentos complexos, é ardilosa e gosta de se fingir de boa pessoa. O pior de tudo é que ela dissimula tão bem que os outros à sua volta não conseguem notar. Eu a vi crescer e a conheço bem. Mas tem um detalhe: ela pode ser cheia de esquemas, mas não tem uma má índole...
Quanto a essa última parte, Tereza discordava veementemente.
No próprio dia do velório do marido, ela ousou pedir um filho ao cunhado. Isso não seria considerado maldade?
Qual mulher normal seria capaz de cometer um ato tão baixo e desprovido de qualquer escrúpulo?
Quando Alarico Cardoso ainda era vivo, a mimava como a joia mais preciosa do mundo. Ninguém tinha a coragem de ofendê-la. Bastava que os olhos dela marejassem para que Alarico passasse metade do dia tentando consolá-la.
Tereza costumava invejá-la. Chegou a pensar que ela própria e Norberto tivessem um sentimento recíproco e estivessem em sintonia, sendo o casal mais lindo do mundo. E, secretamente, nutria a esperança de que Norberto seria igual ao irmão mais velho, um homem que mimaria a sua esposa.
Mas, para a sua surpresa, assim que a morte levou o marido, até mesmo os sentimentos foram descartados num piscar de olhos.
O que aconteceu naquele dia havia destruído completamente a visão de mundo de Tereza. Isso a fez, por um instante, duvidar da própria vida e da ordem e das regras desse mundo. Mais tarde, porém, ela aos poucos aceitou o fato de que era simplesmente a índole de Hera que era corrompida.
— Vovó, eu tenho outras coisas para resolver agora. Quando eu voltar ao país...
— O Norberto concordou. Ele mesmo vai ajudar a arranjar um candidato de primeira linha para a Hera. Tereza, eu sei quais são as suas preocupações. Não se aflija, aproveite a sua viagem em paz. Por aqui, eu tomo conta de tudo para você. Quando você voltar, todas essas situações incômodas já estarão resolvidas. — A senhora não foi explícita em alguns pontos, mas em todas as entrelinhas, buscava tranquilizar Tereza.
Ao escutar aquelas palavras, os lábios de Tereza se curvaram em um leve repuxo, e seus olhos transbordaram de ironia.
Que tipo de peça teatral o Norberto estava encenando agora?
Arranjar pessoalmente um pretendente? Ele teria coragem para tanto?
— Vovó. — Tereza, compreendendo a intenção da senhora, respondeu com gratidão: — Muito obrigada pelo consolo. Vou desligar agora.
A velha senhora, no entanto, ainda captou a frieza no tom de Tereza. Ela não insistiu no assunto; apenas lhe deu mais alguns conselhos rotineiros antes de encerrar a chamada.
Segurando o celular, Tereza viu Delfina vindo em sua direção aos saltinhos. Suas trancinhas já estavam prontas, presas com duas presilhas adoráveis em formato de coelhinhos.
— O que a bisavó disse para você? — Delfina perguntou com curiosidade.
Ela se lembrava de quando ele havia enfrentado um adversário formidável. Em vez de confrontá-lo de frente, Norberto deu um passo atrás. O oponente, achando que ele havia desistido, baixou a guarda. Porém, Norberto começou a coletar provas nos bastidores. Com um golpe final e letal, acabou mandando o sujeito direto para a prisão.
Por isso, quando a velha senhora mencionou que Norberto iria pessoalmente arranjar um parceiro para Hera, a primeira reação de Tereza foi pensar que aquilo não passava de mais um dos seus truques.
Talvez toda aquela história de arranjar um namorado fosse mentira. E até mesmo os encontros ou o namoro de Hera não passassem de uma farsa — apenas uma cortina de fumaça para enganar os olhos alheios e fazer com que acreditassem ser verdade.
No fim das contas, Norberto ainda daria um jeito de encontrar toda e qualquer desculpa para cuidar dela, protegê-la e ser o seu pilar mais inabalável.
E tudo isso não passava de uma encenação que ele montava apenas para o público que lhe interessava: a Família Cardoso, a mídia, e, é claro, ela mesma.
De volta ao país!
Três dias já haviam se passado. Durante três longos dias, Hera parecia estar evitando Norberto deliberadamente.
Nas reuniões de rotina do Grupo, ela pediu licença e enviou um vice-presidente em seu lugar. Até os relatórios diários da Apex passaram a ser enviados apenas de modo digital. No refeitório ao meio-dia, nos corredores da empresa ou na Família Cardoso — qualquer lugar em que pudesse se deparar com Norberto, Hera os contornava propositalmente.
O seu comportamento estranho, naturalmente, desenrolava-se sob o olhar atento de Norberto.
Ela ainda estava furiosa pelo episódio de ele ter tentado arranjá-la para Eliseu.
Aquelas atitudes serviam apenas para evitá-lo propositalmente.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Sonhos Distantes na Mesma Cama: O Pedido Proibido
Esse livro é ótimo.......