Ela olhou para a grande placa no alto da fachada com o nome entalhado, Igreja da Paz, com letras fortes e majestosas.
Como não era dia de missa festiva nem data especial de devoção, havia pouquíssimos fiéis pelo local.
Hera atravessou os portões, caminhou pelo salão principal e ergueu os olhos em direção ao altar majestoso, envolto pela fumaça do incensário.
As imagens sagradas exalavam uma aura de misericórdia, observando a multidão de mortais lá do alto com seus olhares condescendentes.
Hera pegou três velas do lado e ajoelhou-se no genuflexório.
Ela fechou os olhos e uniu as mãos em oração.
Permaneceu ajoelhada por uma eternidade. Tinha muita angústia e ressentimento reprimidos dentro de si nos últimos tempos.
Ficou ali por tanto tempo que suas pernas adormeceram. Apenas quando sentiu a presença de outros fiéis entrando, Hera posicionou as velas acesas no altar, fez uma última reverência e se levantou. Virou-se para sair do salão principal, disposta a encontrar o responsável pelas acomodações da igreja para solicitar um quarto.
Ela caminhou em direção ao anexo lateral. Mal havia cruzado o portão do pátio quando ouviu passos atrás de si.
Logo em seguida, uma voz masculina, grave e ansiosa, chamou:
— Hera, sabia que você estaria aqui.
Hera congelou ao ouvir aquela voz tão familiar. Ela fechou os olhos e um sorriso vitorioso despontou em seus lábios.
Em seguida, vestiu uma máscara de surpresa e se virou.
Norberto estava parado não muito longe, sob a sombra de uma árvore. Parecia ter subido a montanha com pressa; seu rosto belo estava banhado de suor. Eduardo e alguns seguranças o acompanhavam de perto.
— Norberto... — Hera exibiu uma expressão atônita. — O que você está fazendo aqui?
Norberto a encarou, apertou os lábios finos e respondeu:
— Por que subiu a montanha sozinha? Já esqueceu do perigo que passou daquela outra vez?
Hera apenas riu levemente:
— Aquilo foi um acidente. Eu não tenho tanto azar a ponto de me meter em confusão toda vez, tenho?
Norberto cerrou as sobrancelhas e deu passos largos até ela:
— E se algo acontecesse? Se você se machucasse, o que seria de nós, a sua família?
Hera assumiu imediatamente uma postura de garotinha envergonhada:
— Me desculpe, Norberto. Não era minha intenção preocupar vocês. Eu só... eu só queria sair para tomar um ar. Aqui é longe de tudo, é tão pacífico.
Norberto assentiu, compreensivo:
— Sei que você tem passado por muita pressão ultimamente. Mas deveria ter avisado alguém antes de sair, ou pelo menos trazido um segurança com você.
A ansiedade que oprimia o peito de Hera desfez-se no mesmo instante.
Ela agarrou o braço de Norberto, manhosa como se fosse uma criança:
— Norberto, tenho notado que a Tereza anda tão distante de você ultimamente. Aconteceu alguma coisa entre vocês? Por que o jeito dela mudou de forma tão drástica? Até comigo, ela... — Hera deixou a frase no ar, propositalmente.
A expressão no rosto bonito de Norberto ficou gélida como se coberta por uma camada de gelo. Desde o momento em que descobrira que Tristan também estava de folga, todas as suas suspeitas haviam se cristalizado.
Era muito provável que Tereza e Tristan já tivessem planejado tudo pelas suas costas. Pelo que ele sabia, a irmã de Tristan trabalhava na Suíça, mas ele havia trazido a sobrinha de volta ao Brasil para estudar. E não qualquer escola, mas a mesma em que Delfina estudava, fazendo com que as duas meninas virassem as melhores amigas.
Isso era apenas uma coincidência?
Não. Era uma armadilha friamente calculada.
— Estou preocupado com a segurança de Delfina. Sinto muito, Hera, mas não posso ficar. — Ao dizer isso, Norberto virou as costas para ela e ordenou a um dos seguranças. — Nathan, você e outro ficam aqui para proteger a Diretora Lopes.
Nathan assentiu de imediato:
— Sim, senhor. Deixe conosco, Diretor Cardoso.
Um profundo desapontamento cintilou nos olhos de Hera, durando apenas um breve segundo.
Ela se lembrou de quando Norberto fora encontrá-la no navio de cruzeiro na última vez. Quando a matriarca da família ficou sabendo, armou logo um encontro às cegas com aquele homem da família Ibarra, com a clara intenção de forçá-la a se casar de uma vez por todas.
Se Norberto ficasse na igreja para lhe fazer companhia agora, a velha certamente descobriria mais cedo ou mais tarde. Conhecendo a loucura daquela velha megera, ela seria capaz de dopá-la e jogá-la na cama de outro homem à força. Fazer Norberto ficar seria, de fato, muito arriscado.
Hera precisava manter sua imagem de mulher pura e intocada. Com exceção de Alarico, ela não poderia cruzar essa linha com nenhum outro homem. Esse era o seu trunfo principal para garantir a própria felicidade no futuro.
— Tudo bem, então vá logo, Norberto. A Tereza deve estar passando por um bocado de dificuldades sozinha com a Delfina. Vai lá... — Hera deu um passo para trás e abriu um sorriso compreensivo.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Sonhos Distantes na Mesma Cama: O Pedido Proibido
Esse livro é ótimo.......