As palavras de Henrique carregavam um peso oculto.
Tereza abaixou os olhos e recomeçou a mexer a sopa com a colher, ciente de que os dois estavam indignados por ela.
— Ele veio aqui ontem à noite. — Tereza comentou e logo acrescentou: — Mas depois teve um imprevisto e precisou ir embora.
Gregório olhou para ela, manteve o olhar fixo por alguns segundos e decidiu não jogar mais sal na ferida.
Henrique permaneceu sentado mais um pouco até receber uma ligação da empresa. Antes de ir, ele disse a Tereza:
— Surgiu um problema na empresa, então eu já vou. Descanse bastante.
Tereza balançou a cabeça afirmativamente, acompanhando-o com os olhos até que ele saísse.
No quarto, restaram apenas Tereza e Gregório.
Gregório olhou pela janela, sem dar o menor indício de que pretendia ir embora, pegou o prontuário dela e começou a ler.
— Gregório, o seu hospital também deve estar movimentado, você não precisa ficar aqui me fazendo companhia. Pedi para o assistente vir às dez horas cuidar dos papéis da minha alta. — disse Tereza em voz baixa.
— Não tem problema. — respondeu Gregório. — Eu apenas quero ficar um pouco com você.
Tereza o encarou, subitamente sem palavras.
O Gregório que vivia em sua memória falava pouco, mas era dono de atitudes firmes e de um forte senso de responsabilidade. Além disso, havia uma enorme diferença entre ele e Norberto: embora também não fosse de falar muito, as suas palavras sempre condiziam com as suas ações.
— Tereza, chegando a este ponto da sua vida com ele, você já se arrependeu alguma vez? — Gregório estava de costas para Tereza, fingindo estar absorvido no prontuário, mas todo o seu corpo estava tenso ao proferir aquela pergunta.
Tereza ficou atônita! Diante de uma pergunta tão direta, a sua voz saiu ligeiramente embargada:
— Gregório, por que você está me perguntando isso de repente?
— Porque eu quero saber. — Gregório pendurou o prontuário de volta na grade da cama, virou-se e fixou os olhos profundamente nela: — Eu quero saber por que, lá atrás, você ignorou tudo e a todos e insistiu tanto em se casar com ele.
Tereza congelou!
Naquele momento, a luz do sol vinda da janela foi ficando cada vez mais forte. Um novo dia estava começando.
Exatamente nessa hora, Eduardo empurrou a porta abruptamente e disse:
— Dra. Leal, por acaso o seu celular está sem bateria? O Diretor Cardoso está tentando te ligar e não consegue.
A intervenção inoportuna de Eduardo quebrou o clima pesado que havia se instalado no quarto.
Gregório fechou os olhos por um segundo, virou-se para encarar Eduardo e perguntou:
— Onde ele está? Que horas ele vem para cá?
Eduardo ficou desconcertado com a pergunta de Gregório e gaguejou ao responder:
— O Diretor Cardoso... provavelmente só conseguirá vir à noite.
Eduardo olhou para a tela do celular, com uma expressão atordoada e sentindo-se impotente. No fim das contas, o Diretor Cardoso realmente havia pendido para o lado da Diretora Lopes, deixando a Dra. Leal à margem.
No momento em que Tereza obteve a alta, Filomena chegou. Ao se deparar com o estado machucado da filha, os olhos de Filomena marejaram instantaneamente e ela correu para ampará-la.
Kesia auxiliou com a papelada burocrática e Tereza finalmente voltou de carro para o apartamento.
Dona Lígia, que já havia sido avisada do acidente, viu-a chegar e correu para preparar um belo almoço a fim de receber Filomena e Kesia.
Tereza acomodou-se encostada na cabeceira da cama. Filomena fechou a porta, sentou-se ao seu lado e perguntou, com o coração apertado:
— Cadê o Norberto? Sumiu do mapa de novo?
— Mãe, eu já não dou a mínima para onde ele está. — Tereza exibia um cansaço nítido em seu rosto enquanto massageava o espaço entre as sobrancelhas.
O coração de Filomena apertou-se ainda mais. As pessoas de fora poderiam não compreender a razão da perseverança de Tereza nos últimos sete anos, mas ela sabia. Tereza já foi apaixonada de forma desmedida por Norberto. Para conseguir ficar perto dele, para ter o direito de estar ao seu lado, a sua filha jamais havia deixado de se esforçar incansavelmente. Agora que finalmente havia alcançado o prestígio no mundo acadêmico e chegado ao momento em que deveria saborear a felicidade e colher os frutos, o destino lhe derramava um balde de água fria, apagando todas as suas esperanças.
— Tereza, se você estiver com vontade de chorar, pode chorar, não precisa segurar. — aconselhou Filomena com o peito apertado: — Você não precisa ser forte em tudo, na frente da sua mãe, você sempre será a minha garotinha.
Tereza ficou em choque. Todo o seu autocontrole de fortaleza e resignação cedeu subitamente, abrindo-se como uma represa rompida, e as lágrimas invadiram o seu rosto de imediato.
— Mãe, eu estou bem, sério, eu estou bem. — Tereza forçava-se a manter uma fachada serena, mas as lágrimas que escorriam por suas bochechas revelavam a dor.
— Tudo bem, a mãe sabe. A mãe sabe que você sempre foi corajosa e resiliente, e que não gosta de demonstrar as suas fraquezas. A mãe sabe de tudo. Mas você não é de ferro. Você também se entristece, também sente dor. Chore, coloque tudo para fora que logo melhora. — Filomena estendeu os braços e envolveu-a, com o próprio rosto já banhado em lágrimas.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Sonhos Distantes na Mesma Cama: O Pedido Proibido
Esse livro é ótimo.......