POV Lianna
Quando saí do hospital, o mundo parecia feito de vidro fino. Cada passo ecoava como se meu corpo tivesse sido esvaziado por dentro.
Eu tinha acabado de salvar ela. Camille. A amante do meu marido. A mulher que partiu minha vida em duas metades. A minha meia-irmã. E eu fiz o que tinha que fazer. Mas o que tinha que fazer… não era o que o meu coração queria.
O vento da noite bateu no meu rosto enquanto eu caminhava até o estacionamento. A cabeça latejava. O jaleco pesava. A alma arrastava um cansaço que não tinha nome.
— Lianna.
A voz de Adrian me alcançou antes que eu conseguisse abrir a porta do carro.
Virei devagar. Ele vinha apressado, ainda de jaleco, com aquele olhar preocupado que eu não sabia como receber. Gentileza demais sempre me deixou desconfortável.
— Você precisa respirar. — disse ele, parando na minha frente, as mãos nos bolsos como se evitasse tocar minha dor. — Hoje foi pesado… até pra você.
Ri sem humor.
— Eu estou acostumada com pesado, Adrian.
— Não esse tipo. — ele rebateu, firme. — Isso foi pessoal. Foi injusto. E você segurou tudo sozinha.
Engoli seco.
— É o meu trabalho.
— Não. — ele corrigiu, dando um passo mais perto. — O seu trabalho é salvar vidas. O que você fez hoje foi salvar alguém que te feriu. Duas vezes.
Desviei o olhar, sentindo o nó na garganta crescer.
— Eu só fiz o que qualquer médico faria.
— Não. — a voz dele caiu suave. — Você fez o que uma pessoa extraordinária faria.
Isso… isso partiu algo dentro de mim.
Respirei fundo, olhos marejando, mas mantive a postura.
— Não romantiza. — pedi, exausta. — Não hoje.
Ele assentiu, respeitando o limite.
— Tudo bem. — disse, baixinho. — Mas se precisar… eu estou aqui.
Por um segundo, achei que ia desabar nos braços dele. Mas não podia. Não era justo, com ele, comigo, com ninguém.
— Boa noite, Adrian. — finalizei, abrindo a porta do carro.
— Boa noite, Lianna.
Entrei no carro e fechei os olhos por alguns segundos.
A imagem da convulsão de Camille me atravessou de novo. O corpo dela tremendo. A saturação despencando. Zayden pálido, desesperado. E eu ali, salvando a mulher que destruiu meu casamento… e o homem que destruiu minha vida olhando como se só agora percebesse que eu existia.
Meu peito doeu. Não de amor. De memória. Memória dói mais que qualquer ferida.
***
Quando cheguei em casa, a luz da sala ainda estava acesa. A babá abriu a porta antes mesmo de eu subir os três degraus.
— Doutora Lianna! — ela exclamou, aliviada. — Me desculpe de novo por ter pedido para senhora vir mais cedo. Foi tudo muito rápido…
— Está tudo bem. — garanti, abrindo um sorriso cansado. — Emergências acontecem. Os gêmeos ficaram bem?
Ela sorriu.
— Dormiram às nove. Fizeram a lição direitinho. E Selin pediu para deixar a luz do corredor acesa… acho que o dia foi pesado para ele.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Senhor Ex-Marido, quer que eu te salve? Se ajoelhe!