O corredor da UTI era um purgatório de bipes de máquinas e cheiro de antisséptico. Clara estava sentada em uma cadeira de plástico desconfortável, os olhos fixos na porta fechada do quarto de Thiago, quando ouviu as vozes.
Eram seus pais, discutindo em voz baixa no final do corredor.
— A culpa é sua, Lúcia! — sibilou Geraldo. — Se você tivesse sido mais dura com ela, se a tivesse ensinado a ser uma esposa obediente!
— Minha culpa? — a voz de Lúcia era um soluço trêmulo. — Foi a sua mãe que começou tudo isso! Foi ela quem vendeu a nossa filha!
— Cale a boca! Ninguém pode saber disso!
— Eu não me importo mais! Eu perdi minha filha uma vez, e agora estou perdendo meu filho! E aquela pobre menina...
Clara se levantou, as palavras ecoando em sua mente. "Vendeu a nossa filha". "Pobre menina". A conversa confirmou a verdade terrível que seu pai havia deixado escapar.
Ela caminhou até eles. Seus pais pararam de discutir, os rostos pálidos de culpa ao vê-la.
— O que aconteceu? — Clara perguntou, a voz assustadoramente calma. — O que aconteceu com a sua filha de verdade?
Lúcia desabou, e a história completa veio à tona. A avó cruel. A venda. A culpa. E o bebê que eles encontraram, um presente e uma maldição.
— Nós sentimos muito, Clara... — sua mãe chorou.

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